terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Dicas de Carreira em RIs



Neste início de ano tenho sido procurado com freqüência por alunos de graduação em RIs que têm dúvidas sobre as possibilidades de carreira a seguir. Natural, é área recente no Brasil, com mercado de trabalho instável. As dicas abaixo são para quem está nessa situação. A primeira metade delas diz respeito à formação educacional, que freqüentemente é negligenciada pelos alunos, muito mais preocupados com questões de emprego - abordadas na segunda parte.

1.Aprenda idiomas.

A língua portuguesa, inculta é bela, é a um tempo esplendor e sepultura, já dizia Olavo Bilac. Os debates internacionais relevantes ocorrem em inglês e você precisa dominar esse idioma com a fluência necessária para ler livros acadêmicos. Aprenda pelo menos outra língua estrangeira – espanhol, se quiser se dedicar à América Latina, francês ou alemão caso queira se especializar na União Européia.

2.Estude história, literatura e cinema.
O ensino de relações internacionais é excessivamente concentrado em modelos teóricos abstratos, criados nos Estados Unidos, que só funcionam para a análise de situações práticas se a pessoa tiver um sólido conhecimento da história e da cultura dos países estrangeiros. Em geral as universidades brasileiras não conseguem dar essa formação ampla, de modo que você deve procurá-la por si mesmo. Leia, leia e leia, veja bom filmes, visite exposições de arte etc.

3.Viaje.
O mundo é um grande livro e quem não viaja lê só uma página, observou Santo Agostinho. Ninguém estuda RIs a sério sem conhecer os países que pretende pesquisar. Se não tiver dinheiro para a aventura, busque alternativas, há programas de bolsas de estudo e intercâmbio, congressos acadêmicos ou possibilidades de empregos temporários nas férias.

4.Conheça estrangeiros.

Aproveite todas as oportunidades para conversar e trocar idéias com estrangeiros, isso lhe dará uma perspectiva única e ajudará no processo (fundamental) de des-provincializar o pensamento. Algo bastante difícil em qualquer parte, em especial num país muito voltado para dentro de si mesmo, como o Brasil. Se você de fato tem vocação para a área, é porque é uma pessoa inquieta, que gosta de questionar os valores tradicionais de seu país e ter acesso a outros pontos de vista. Nada mais irritante na área do que se comportar como personagem de Bernard Shaw: “Ele é um bárbaro, e pensa que os costumes de sua ilha são as leis universais da humanidade.”

5.Explore a Internet.
Navegar é preciso. Sites de jornais, universidades, fóruns de bate papo e discussão, blogs. Você se surpreenderá com a alta qualidade do material que é possível encontrar na rede. Referências obrigatórias são os principais jornais/revistas mundiais, como New York Times, Economist, Le Monde, Guardian, Financial Times, El País etc.

6.Curse pós-graduação.
Só a graduação não basta. Simples assim.

7.Pense as possibilidades de carreira de maneira ampla.
Relações Internacionais NÃO são sinônimo de carreira diplomática. O Itamaraty oferece, em geral, cerca de 30 vagas ao ano. É menos do que uma turma de RI e são dezenas de cursos Brasil afora. Não entre na carreira apostando suas fichas nessa perspectiva. No Estado, considere também oportunidades como gestor de políticas públicas, analista de comércio exterior, analista de inteligência ou setores jurídicos. Na iniciativa privada, leve em conta empresas, imprensa, universidades, organizações não-governamentais, consultorias: todas oferecem vagas na área. Vale se informar. E use a criatividade para inventar oportunidades e vender seu peixe.

8.Procure realizar estágios, mesmo que não-remunerados.
O maior problema na formação dos profissionais de RIs é a ausência de prática na área. Qualquer experiência que envolva cooperação internacional irá lhe ensinar muito. Agarre-a com as duas mãos e se possível prenda-a também com as pernas.

9.Escreva e publique.
Fez uma viagem interessante? Pensou algo novo a respeito de um velho problema? Descobriu um assunto que pode ser uma tendência forte na área? Escreva, escreva e publique. Mande artigos para site acadêmicos, procure as seções de opiniões nos jornais, entre nos debates do Orkut ou, que diabos, crie um blog. É um modo de entrar em contato com pessoas que têm interesses semelhantes aos seus.

10.Escolha uma especialização pela qual você realmente se interesse.

Estudantes sempre me perguntam pelo salário da área. A resposta é a mesma de qualquer profissão: varia imensamente. O fundamental é se especializar – as RIs são vastas – em um tema que realmente seja gratificante, até porque sem esse impulso, ninguém consegue chegar nem na esquina, quanto mais ter uma vida profissional plena. Em todo caso, não tenha ilusões: a carreira requer grandes investimentos em formação e educação, é bastante elitista e competitiva. Boa sorte!

5 comentários:

Raphael Goulart Kelm disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mauricio Santoro disse...

Olá, Raphael.

Bom saber que você já se dedica ao tema antes mesmo de começar a estudar na faculdade. O pessoal do RS tem feito estudos muito interessantes, sobretudo no campo do Mercosul. Bom curso!

Abraços

Rodrigo Silva disse...

Excelente post! Sanou inúmeras dúvidas minhas! Se deus quiser, quando retornar do intercâmbio estarei cursando RI na UFF, USP ou PUC-RIO.

Parabéns pelo blog! Abraços

Mauricio Santoro disse...

Espero que sim, Rodrigo!

Boa sorte!

daniely disse...

Gostei de RI de cara, mas parece que quanto mais eu conheço a faculdade, mais me dá medo de faze-la! :(

Mas, realmente esse post ajudou bastaante! Esclareceu várias dúvidas, obg