quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Tensão nas Fronteiras Sul-Americanas


Há tensão nas fronteiras sul-americanas nesta semana, com conflitos envolvendo Colômbia, Venezuela, Chile e Peru. Houve de tudo: remoção de embaixadores, deslocamento de tropas, negociações e processos em tribunais internacionais.

Comecemos pela novela entre Chávez e Uribe. O presidente venezuelano chamou seu embaixador em Bogotá para consultas e enviou policiais e militares para a fronteira com a Colômbia, alegando que defendia a soberania alimentar da Venezuela. Como os alimentos são subsidiados no país, há intenso contrabando para o lado colombiano. Enquanto isso, autoridades americanas do Pentágono e da DEA visitaram Bogotá e acusaram Chávez de facilitar o narcotráfico e promover corrida armamentista na região. O presidente venezuelano respondeu chamando seu colega colombiano de “chefe mafioso”.



Uribe passa a semana na Europa, visitando autoridades francesas, espanholas e da União Européia. Ele conseguiu que todas reafirmassem a classificação das guerrilhas colombianas como organizações terroristas, recusando o pedido de Chávez para que fossem consideradas como “grupos beligerantes”. Contudo, o mais importante é o avanço na proposta lançada pela Igreja Católica e apoiada por França, Espanha e Suíça: criar uma “zona de encontro” para que governo e FARCs possam negociar a libertação de reféns mantidos pela guerrilha. Foi a melhor sugestão a surgir no processo de diálogo até agora.



Peru e Chile têm disputa envolvendo direitos de pesca em seu litoral. O Peru promulgou uma lei no fim do governo Alejandro Toledo alterando a fronteira marítima entre os dois países, dando aos peruanos mais 35 mil km2. O Chile afirma que a iniciativa viola os tratados de limite da década de 1950. Nesta semana os dois países convocaram seus embaixadores e levaram o caso à Corte Internacional de Justiça, em Haia, que pode demorar até 5 anos para resolver a questão. Ou nem isso. A crise das papeleras entre Argentina e Uruguai se arrasta há quase tanto tempo e as decisões da Corte foram tão ambíguas que cada lado as interpretou como quis.

O conflito chileno-peruano é agravado pelas más práticas do passado. Primeiro, o Chile conquistou território desse país e da Bolívia na Guerra do Pacífico, no fim do século XIX, o que resultou numa situação de tensões até hoje não resolvidas. Para piorar, surgiram denúncias de que os militares chilenos contrabandearam armas para o Equador, durante o recente conflito desse país com o Peru, e tudo isso enquanto vigorava um embargo internacional (a Argentina, diga-se de passagem, fez o mesmo).

Com freqüência se trata da América do Sul como um continente onde as guerras foram poucas e tiveram importância reduzida. É um erro de avaliação que deve ser corrigido. Rivalidades militares e disputas nacionalistas são relevantes para o estudo da região. É preciso conhecer como surgiram, quais suas dinâmicas, que grupos ganham e perdem com elas. O notável é que as mais acirradas entre elas – Brasil x Argentina e Argentina x Chile – tenham dado lugar a cooperação política e econômica bastante intensa.

3 comentários:

André Góes disse...

Maurício,

seu blog tornou-se leitura obrigatória. Agradeço sinceramente pela qualidade do material socializado!

Forte abraço brasiliense,

André Góes

patricio iglesias disse...

Caro Maurício:
Voltei outra vez! Agora tenho um pouco mais de tempo, mas estou com problemas com o computador (estou num cibercafé).
Sim, é interessante a situacäo dos paises sul-americanos e os resentimentos seculares (como entre o Perú e a Bolívia contra o Chile, que eu diria é tal vez maior que as duplas Chile-Arg. e Arg.-Brasil que mencionou). Além disso, concordo con a visäo "oficial" de que as guerras foram escasas näo só no Sul, senäo em tuda América, em comparacäo com continentes como Europa.
Saludos argentinos

Patricio Iglesias

Mauricio Santoro disse...

Caro André,

que bom, meu amigo, a intenção do blog é exatamente essa!

Hola Patricio,

seja mais uma vez bem-vindo ao blog. Os acadêmicos do seu país têm realizado pesquisas muito interessantes sobre a formação das rivalidades sul-americanas, mas essa agenda ainda não entrou com força no Brasil.

Abraços