sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

O Banqueiro do Mundo


Também acho que estamos com câmbio sobrevalorizado que prejudica a indústria e dificulta as exportações. No entanto, minha reação à estrutura de incentivos da economia é aproveitar para importar livros e meu pacote da Amazon está uma beleza. São todos obras importantes para os cursos que dou como professor, tratando de temas como África, Índia e instituições internacionais. A leitura do momento é “The World´s Banker: a history of failed states, financial crisis and the wealth and poverty of nations”, do jornalista Sebastian Mallaby.

Assim como o livro sobre Kofi Annan que resenhei há pouco, esta obra mistura a biografia do dirigente de uma organização internacional com a análise da instituição que ele coordena. No caso, James Wolfensohn e o Banco Mundial. Ok, Wolfensohn não é uma figura tão fascinante quanto Annan: trata-se de um financista bem-sucedido, banqueiro de investimentos em Nova York e Londres. Sua personalidade é mais tempestuosa do que a do ex-secretário-geral da ONU, oscilando entre uma grande capacidade de estabelecer amizades e vínculos pessoais e temperamento autoritário, de vaidade quase patológica.

Muito mais interessante do que Wolfensohn é a instituição que ele comandou. Sua época à frente do Banco Mundial (1995-2005) foi de mudança do enfoque dos empréstimos vinculados à programas de ajuste estrutural para projetos que enfatizavam o fortalecimento de instituições e do chamado “capital social”, de mais participação da sociedade nas políticas públicas.

Mallaby é um jornalista veterano, com passagens pelo Washington Post e pela Economist, de quem foi correspondente na África. Não por caso, os melhores trechos do livro são aqueles que lidam com o continente: as experiências bem-sucedidas do banco com projetos de desenvolvimento local no Mali e em Uganda, os problemas com corrupção enfrentados na Costa do Marfim e a frustração com a relutância dos governos em encarar a epidemia de AIDS, sobretudo na África do Sul.

Evidentemente, o Banco Mundial não é uma organização de caridade, mas um instrumento de política externa dos países ricos, que o controlam. Mallaby trata pouco deste ponto, mas quando o faz a análise é muito boa. Mostra o papel decisivo que a instituição desempenhou na reconstrução da Bósnia e de como esse know-how foi desperdiçado pelo governo Bush no Afeganistão e no Iraque – no pós-11 de setembro, a visão oficial americana era tão unilateralista que não havia espaço nem para o Banco Mundial, com as tarefas de reconstrução ficando a cargo do Pentágono!

Outro ponto alto do livro é a análise dos erros que o Banco Mundial cometeu na crise asiática de 1997-1998, em especial na Indonésia, fechando os olhos para problemas sérios em governos que eram vistos como vitrine de reformas econômicas e estabilidade política. A melhor frase do livro é a do ex-ditador indonésio: “O que vocês, ocidentais, chamam de corrupção, para nós são valores familiares”. Essa, nem em CPI brasileira...

Gosto de livros de jornalistas que tratam de temas políticos e contemporâneos atuais, o de Mallaby me lembra muito os de um de seus colegas no Washington Post, Paul Blustein, que escreve sobre o FMI. Contudo, Mallaby deveria ser mais crítico em relação a seu objeto de estudo: há vários momentos em que soa como panfleto em defesa do Banco Mundial. Por exemplo, há debates internacionais sobre a conveniência ou não de grandes projetos de infra-estrutura, como mega-usinas hidrelétricas, e Mallaby ridiculariza os adversários desse tipo de iniciativa, sem considerar seriamente suas posições. Pena, porque o tema interessa diretamente a nós, brasileiros: as usinas no Rio Madeira e a transposição do rio São Francisco são exemplos clássicos da controvérsia.

Me parece também que a abordagem escolhida por Mallaby foi equivocada. A biografia de Wolfensohn é de interesse bastante secundário com relação ao tema do desenvolvimento e da cooperação internacional. Em muitos momentos o presidente do Banco Mundial aparece como alguém que simplesmente seguia a onda. Nesse sentido, seria muito melhor dedicar mais espaço aos economistas que influíram decisivamente nessas discussões, como Amarthya Sen, Joseph Stigltiz e Dani Rodrik, e que no entanto são citados apenas de passagem.

3 comentários:

zealfredo disse...

Caro professor,
"Evidentemente, o Banco Mundial não é uma organização de caridade, mas um instrumento de política externa dos países ricos, que o controlam.", por esta frase o sr. se arrisca a ser chamado de comunista!
[]

Mauricio Santoro disse...

Já fui chamado de coisa pior...

abs

zealfredo disse...

:)