quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Missões Francesas



O bom debate que tivemos no blog sobre a opção francesa da política de defesa me estimulou a escrever novamente a respeito do tema, desta vez para discutir o precedente da Missão Francesa contratada pelo Exército brasileiro nas décadas de 1920/1930, e avaliar o desempenho militar da França em tempos recentes.

A decisão do governo brasileiro em requisitar a Missão foi controversa, e se explica mais em função da influência política e cultural da França do que pelo seu desempenho na I Guerra Mundial, na qual parte considerável da zona industrial do país foi ocupada pelos alemães, que por duas vezes no conflito chegaram a poucos quilômetros de Paris.

Frágil frente à Alemanha, a França era obcecada com posturas defensivas. Mentalidade que culminou na inadequação das fortalezas da Linha Maginot diante da combinação de blindados e aviação da “guerra-relâmpago” dos nazistas. Mas a Missão Francesa introduziu avanços no Brasil, em particular na reforma do sistema de ensino do Exército, com criação ou melhoria de muitas escolas. Ajudou também a implementar o serviço militar obrigatório, aperfeiçoar regras de promoção etc.

A França entrou em declínio com a derrota na Segunda Guerra Mundial e as catástrofes militares nos conflitos coloniais na Indochina e na Argélia, além do fiasco da tentativa de tomar o Canal de Suez, em parceria com britânicos e israelenses. Os pára-quedistas franceses tentaram um golpe em Argel, e De Gaulle voltou à vida política e enterrou a IV República, reforçando os poderes presidenciais na nova constituição e garantindo um mínimo de estabilidade ao país.



Apesar da turbulência política do pós-guerra, a França desenvolveu um impressionante programa de modernização econômica, conduzido por tecnocratas como Jean Monnet e os especialistas da Escola Nacional de Administração. O poder público apoiou a formação de “campeãs nacionais”, grandes empresas com capacidade de inovação tecnológica e competição internacional, numa economia que se abria com a Comunidade Econômica Européia e com as rodadas de negociação do GATT. A modernização abarcou a área militar, com o desenvolvimento de indústrias de ponta na área aeroespacial e nuclear.

As Forças Armadas francesas não lutaram guerras entre 1962 e 1991, mas desempenharam uma série de operações semi-policiais nas antigas colônias, em particular na África. De lá para cá, os militares franceses combateram no Golfo Pérsico e com a OTAN no Kosovo, no Afeganistão. Participaram também de difíceis missões da ONU na antiga Iugoslávia, em Ruanda e em outros lugares turbulentos. A nova política de defesa prevê Forças Armadas menores, porém melhor treinadas, com ênfase na capacidade de intervenções rápidas no exterior e auxílio interno em caso de ataques terroristas.

Da Segunda Guerra Mundial até o fim da década de 1970, o principal parceiro internacional das Forças Armadas brasileiras foram os Estados Unidos. Os conflitos a respeito de energia nuclear, direitos humanos e mar territorial levaram o governo Geisel a denunciar o acordo com Washington. Atualmente, a agenda da Defesa brasileira está cada vez mais global, com parcerias com China, Índia, Rússia, países da América do Sul e da África etc.

A opção francesa faz sentido nessa estratégia de diversificação, mas espero que não se dê à França um peso exagerado nas questões militares brasileiras.

15 comentários:

Alexandre Lima disse...

Olá Mauricio tudo bom?
Sou aluno de Gestão de Políticas Públicas da USP Leste e este ano prestei (apenas para conhecer) o concurso de EPPGG, o qual você já é titular.
Mas antes de um dia quem sabe ocupar o cargo, tenho algumas obrigações ainda acadêmicas! Entre uma delas, é realizar um trabalho sobre inovações tendências no serviço público, e no meu caso, tratar da criação de carreiras de gestão, assunto que nós na faculdade já estamos cansados até de ouvir.
Então, ao pesquisar na net sobre o tema, encontrei o seu blog e pensei que poderia ser interessante colher alguns dados e entrevista com um EPPGG, como até o professor Vaz indicou (talvez você tenha tido aula com ele na ENAP).
Meu foco seria na dicotomia ou não da política/influência com o trabalho da burocracia técnica como você. Enfim, aspectos que orbitam o tema.
Gostaria de um contato eletrônico se fosse possível com você! O meu email é ale.felipe@usp.br
Caso seja possível mande um email para estabelecermos um contato.
Abraço,
Alexandre Lima

Mauricio Santoro disse...

Alexandre,

Sem problemas, me escreva no mauriciosantoro1978@gmail.com.

Abraços

Mário Machado disse...

Opção francesa tem mesmo que ser bem pesada e bem medida, pq depender da França é na prática igual a depender de qq outra potencia.

E temos problemas técnicos tipo acesso a redes gps, sistemas integrados de combate que ainda não ficaram claros pra mim.

Helvécio Jr. disse...

O ideal é que a pareceria conceda ao Brasil a capacidade de pular etapas tecnológicas e de produzir tecnologias novas nacionais dentro de uma década.

Sò não gosto do Jobim fazendo o papel de "espcialista". O cara me parece bem vaidoso no cargo.


abraços jogador.

Mauricio Santoro disse...

Ah, vaidade... É o sentimento mais difundido na Esplanada.

Eu gostaria que tivéssemos mais especialistas com capacidade técnica de debater o tema da defesa na imprensa, por ocasião de um acordo como este vemos a falta que eles nos fazem!

abraços

Mário Machado disse...

Isso é verdade, pq quando vemos um debate numa globo news por exemplo, quase sempre o pesquisador por uma questão ou outra é ligado, ou já foi consultor... Não digo que seja desonesta a opinião, mas perde algo de neutralidade cientifica.

Temos militares da reserva, também, mas a mesma questão de cima se aplica.

Mário Machado disse...

Vaidade, já parei muito pra pensar nisso, tenho a opinião que é impossivel alguém ser político sem que tenha um ego inflado, sem que tenha internamente a certeza que é melhor que todas as alternativas disponiveis. Vaidade, e as vezes arrogância, acaba sendo sub-produto do que compele essas pessoas a vida pública.

Não que ache isso louvavel, mas me parece ser um traço, um trade off inevitavel.

Marcelo L. disse...

O sistema de GPS não tem problema até por que tirando o Sivam todos outros sistemas são franceses (Ratheon).

Está previsto também nesse novo salto tecnológico que haverá um satélite brasileiro que, entre outros pontos, comandará o sistema de navegação.

A grande questão agora é que no caso dos caças é uma arma de ponta e cara, mas fico me pensando não no aspecto militar já que os valores ficam para mim claros e a demanda por um caça para 2015 é fato já que os atuais caças poderão não estar operacionais por vencimento da vida útil, mas na área diplomática/comercial, um tratado com americanos não parecerá que estamos no bloco do tratado da grande Colômbia? E que repercussões teriamos na nossa balança comercial?

Mauricio Santoro disse...

Salve, Mário.

O maior problema com os comentários dos militares da reserva é que eles me parecem muito presos às perspectivas de suas próprias Forças, faz falta a figura do analista que pudesse ter um panorama um pouco mais amplo, de olhar acima das rivalidades burocráticas.

Olá, Marcelo.

O problema para o governo brasileiro não estar próximo à Colômbia, mas afirmar autonomia diante dos Estados Unidos.

É comum que os acordos de transferência de tecnologia impliquem que parte da produção se dê no país receptor, o que ameniza (mas não elimina) os impactos negativos na balança comercial.

No caso do acordo com a França, há a contrapartida que os franceses comprarão cargueiros da Embraer. Esse tipo de mecanismo é conhecido como barter, e, novamente, diminui as conseqüências ruins para a balança.

Abraços

Mário Machado disse...

Há ainda uma questão mais profunda e anterior que é qual é a doutrina de emprego que o Brasil adota? Pq a partir daí podemos analisar melhor.

O caso dos submarinos não me ficou claro se são as embarcações que realmente necessitamos pra defender a costa e compor forças multinacionais.

Mas, é um debate pobre na mídia, na sociedade, no congresso então é pior que mesa de bar. Aprovam Bilhões sem nenhum questionamento...

Marcelo L. disse...

Mario Machado, Mauricio, o tema é complexo, mas em termos da Marinha parece que estratégia é clara desde o começo, ela queria um vetor novo a muito tempo que lhe desse vantagem tática tanto no campo militar como tecnológico. O submarino nuclear entra nessa lógica, principalmente para um país que pretende ter fortes investimentos além até das 200 milhas marítimas. Em termos de dissuação é uma ameaça que tem que ser pesada por qualquer país, vide os argentinos nas Malvinas.

Vindo que o atual estágio das marinha é ser uma sucata em 2025 em termos tecnológicos, ela começou um processo a muito de ter várias tecnológias que serão aptas naquele momento. Diferente de outros países sul-americanos, o que ela fez foi já pensar mais no futuro, por que se deixar tudo para 2020 não dá tempo e a conta será bem mais salgada.

E depender tecnologicamente de um país como é o caso de contas de prateleira é complicado, a famosa batalha das lagostas agora lembrada como um rusga com os franceses e seu caráter sai na imprensa como só os franceses terem agido mal...mas, omitem que Washington proibiu os navios com sua tecnologia de ir para zona do conflito. Se as Forças Armadas não tiverem o mínimo de "tecnologia nacional" e dependência 100% nas partes que realmente interessam acredito que o debate deveria ser para que forças armadas, parece agressivo, mas vindo pelo nosso exemplo da Batalha das Lagostas e do argentino nas Malvinas, seria termos armas que não podemos usar ou nossos fornecedores explicam para "os inimigos" como neutralizar nossas armas e nem termos como impedir isso contratualmente.

Mauricio Santoro disse...

Salvem,

No caso dos submarinos, em especial do nuclear, a questão me parece clara, pois é um projeto de décadas da Marinha.

A experiência das Malvinas foi importante para reforçar a iniciativa, pois a avaliação das Forças Armadas é que se a Argentina tivesse uma boa frota de submarinos, o resultado do conflito poderia ter sido diferente. E ficou claro o efeito devastador do afundamento do cruzador Belgrano por um submarino britânico.

Em suma, os submarinos são para a defesa do Atlântico Sul, com pré-sal, zona econômica exclusiva etc.

Mas chamo a atenção também para a importância do sistema de propulsão nuclear, que é empregado em muitas outras embarcações.

Abraços

Mário Machado disse...

Uma coisa é fato. Se o Brasil quer ser um global player, tem que ter força militar e tecnologia.

Não seria melhor comprar alguns e investir pesado em desenvolvimento, me preocupo muito com radares e sistemas de defesa, pra próxima geração de equipamentos.

Misseis que derrubem caças furtivos e coisas assim, isso seria também um efeito dissuassório.

Era bom que a Abin, que ninguém nos ouça, começasse a roubar uns segredinhos também..rs.. isso ajudaria.

Marcelo L. disse...

Mário Machado, não misseis pelo melhor que sejam são um sistema defensivo passivo, a história prova que isso é um erro. Recentemente a Argentina pensou que isso fosse possível quando a frota ficou paralisada pela presença dos nucsub ingleses, para tentar impedir fizeram uma defesa...a Inglaterra com alguns tropeções conseguiu neutralizar os exocet com uma ajudinha americana e francesa...fizeram a invasão pelo ponto mais complicado e depois de tomada a cabeça de ponte já era.

Mas, mesmo assim o Brasil vem fazendo pesquisa nessa área até com sul-africanos e indianos.

Ter armas que possam agredir sempre é a melhor política, essa era a parte da doutrina alemã que se mostrou bem superior a francesa na segunda guerra mundial.

Chester disse...

Fantastic!