quarta-feira, 9 de setembro de 2009

A Opção Francesa



Carla Bruni não veio, mas Sarkozy e Lula anunciaram em grande estilo uma série de acordos militares entre França e Brasil. As Forças Armadas brasileiras comprarão 36 caças, 50 helicópteros e 5 submarinos, sendo um deles de propulsão nuclear. O pacote de R$37,5 bilhões é o maior da história brasileira - valor significativo em qualquer época, verdadeira benção para a combalida indústria de defesa francesa, que sofre os impactos da crise mundial.

A opção pela França se deu mais por razões políticas do que pela qualidade indiscutível dos produtos – os sites militares brasileiros se dividem nas preferências pelos caças russos ou americanos. Mas a excelente relação franco-brasileira tem se traduzido na disposição dos parceiros europeus em transferir tecnologias avançadas, numa escala que outras potências, como os Estados Unidos, jamais propuseram. Os franceses também aceitaram adquirir o novo cargueiro militar da Embraer, embora a aeronave rivalize com um produto semelhante de sua própria Airbus.

Em contraste, há ressentimentos com o veto americano à venda de Super Tucanos da Embraer à Venezuela – algo tornado possível pela presença de componentes dos EUA nesse modelo de avião.



O anúncio do presidente Lula favorecendo o Rafale passou por cima do cronograma oficial do Ministério da Defesa, que só divulgaria o resultado no fim de outubro. É a primeira venda internacional do novo caça. Quatro tentativas anteriores fracassaram e agora há certa expectativa do governo francês em conseguir encomendas de outros países emergentes, como a Índia.

A decisão brasileira se dá no contexto dos aumentos dos gastos militares na América do Sul, que quase dobraram ao longo da década de 2000. No entanto, é preciso cautela antes de falar em “corrida armamentista”, pois a região continua a ser a que menos despende em defesa. Mas o boom de commodities propiciou a alguns países (Chile, Venezuela) melhorar bastante suas capacidades em algumas áreas, ao passo que o apoio americano permitiu à Colômbia grande expansão de suas Forças Armadas.

Em parte, esses investimentos lidam com questões de sucateamento e abandono, mas levaram também o Brasil a aumentar seus gastos com defesa, para manter posições de liderança frente aos países vizinhos e fortalecer suas possibilidades de ação em regiões sensíveis - Amazônia e Atlântico Sul - em contexto de crises andinas, maior presença dos Estados Unidos na região, e a novas riquezas do pré-sal.

O problema, como observou Thiago de Aragão, é que a América do Sul está se tornando um perigoso tabuleiro de rivalidades entre potências extra-hemisféricas, com os EUA fornecendo armas à Colômbia, a França ao Brasil e a Rússia à Venezuela. Não é exatamente um bom cenário para a região.

16 comentários:

DD disse...

Maurício, vc acha provável se intensificarem essas rivalidades extra-hemisféricas: EUA armando Colombia; Russia, a Venezuela; e França, o BRA? Me parece que com o comércio global diluído em interesses de transnacionais e de stakeholders dispersos as rivalidades nacionais perdem um pouco o sentido.

Mauricio Santoro disse...

Acho possível, Dani, porque o comércio de armamentos é um oligopólio no qual as maiores empresas possuem fortes vínculos com seus respectivos governos nacionais.

Abraços

Helvécio Jr. disse...

Salve jogador,

bom comentário!

No caso do atual projeto FX (FX 2) os russos não estavam na etapa final. Só franceses (Dassault); suecos (Saab) e norte-americanos Boeing (F/A-18).
Quanto ao submarino nuclear, só vão adquirir o casco, e será construído aqui. Toda tecnologia interna é nacional. Resultado de um know-how adquirido da parceria com os alemães da IKL. Por isso, acho positivas tais parcerias.
Algumas fontes das forças armadas criticaram a opção pelo Rafale. Segundo tais fontes foi a parte "para agradar" politicamente os franceses. DO ponto de vista estratégico (alcance operacional, autonomia) o F/A-18 seria o favorito. Mas aí vem as restrições jurídicas que você já citou para a transferência de tecnologia.
no geral acho positiva a parceria. As vantagens estratégicas para a ampliação da hegemonia regional serão grandes. E vejo como uma necessidade de Estado, não um projeto de governo.

abração jogador!

Dei meus pitacos sobre o tema também: http://animusdominandi.blogspot.com

Mauricio Santoro disse...

Caro,

Pois é, os russos saíram antes da fase final, apesar da boa avaliação de seus caças. Na época, muitos analistas estrangeiros afirmaram que o desejo do governo brasileiro era não se indispor com os americanos.

Também concordo que, em linhas gerais, o acordo com a França é muito interessante, em especial pelas possibilidades tecnológicas.

Minhas dúvidas são mais com relação aos detalhes da implementação, de como isso será colocado em prática.

Abraços

Mário Machado disse...

O problema desses acordos é como dizem os americanos o "porky", construtoras sem licitação, detalhes nebulosos, espero que o TCU esteja preparado pra avaliar e acompanhar esse processo. Tá sei que como analista deveria me focar como vc com a política internacional e todo o problema geopolítico, mas como contribuinte minha carteira já treme...

Marcelo L. disse...

Mauricio, não é bem assim cada caça tem sua particularidade, mas o Rafale 3 é superior ao caça russo e americano e o Gripen é um projeto que nem a Suécia se comprometeu a comprar.

Se comparar com os caças iguais a ele como F-15 e F-22A o custo dele de manutenção é mais baixo.

E por sinal a cada processo adiado a manutenção dos atuais caças sai mais cara.

A tentativa do acordo agora ao meu ver uma virada histórica que não temos desde Vargas, um grande tratado que envolve quase todos os campos militar/diplomático/científico/político.

Quando ao texto do Thiago com todo respeito é ideologia, não é isso que nem visto lá fora, só ler a posição do nuevamayoria quanto ao contrato.

Retornando ao F-18 parte da discussão ´por que ele ainda continua é ideológica, por que acha-se que a compra dará ao direito do Brasil ser informado antes e concordar com que os americanos façam na nossa área de interesse estratégico.

O Brasil chegou na seguinte situação ou compra agora que tem dinheiro em caixa ou larga a mão de forças armadas, por que o custo dos sucessivos adiamentos vão levar ao caos.

Mauricio Santoro disse...

Salve, Mário.

Acho que você está corretíssimo na sua observação e que a prestação de contas à população é uma característica muito importante, mesmo em acordos militares que envolvam componentes sigilosos. Algo que ainda não entendo, do ponto de vista jurídico, é como o presidente pode ter feito o anúncio antes da decisão oficial do Ministério da Defesa.

Caro Marcelo,

O Rafale não é extamente um sucesso de crítica entre os pilotos. Há muitos pontos questionáveis em seus equipamentos eletrônicos e até hoje a França nunca tinha conseguido vender nenhuma unidade a um país estrangeiro, falava-se até na "maldição do Rafale".

O veto aos americanos se deu pela questão da não-disposição de transferir tecnologia e também pelo desejo brasileiro de maior autonomia frente aos EUA.

Me parece que os acordos com a França são bons para o Brasil, mas tenho alguns elementos de ceticismo, em particular pelo fato de que o país não mais desfruta da liderança tecnológica em setores de ponta, além de ter acumulado derrotas militares trágicas no século XX.

Afinal, o Exército brasileiro apostou muito na missão francesa da primeira metade do século passado, e embora ela tenha ajudado a modernizar as Forças Armadas brasileiras, depois ficou claro que seus modelos eram ultrapassados diante das inovações dos EUA e da Alemanha.

Abraços

Helvécio Jr. disse...
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Helvécio Jr. disse...
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Helvécio Jr. disse...

Caros,

Essa história de um caça superior ao outro é relativa. O Rafale, junto com o Eurofighter (na europa) desempenha funções de superioridade aérea com alta tecnologia. Ataque ao solo, ar-ar, mísseis guiados. O que realmente não supera é o nível estadunidense de caças como o F-22. Mas o F-22 está bem acima das possibilidades de qualquer país que não seja os EUA.

Os pilotos costumam dar mais crédito ao batismo de fogo e histórico de combate dos caças. Por ex. O Harrier britânico que provou ser mais eficiente do que o Mirage III durante as Guerra das Malvinas. (o problema era a tecnologia superior dos mísseis ar-ar norte-americanos sidewinder usados pelos britânicos)
Ex. 2. O F-16 que no seu histórico de combate nunca foi derrubado por um caça rival, Venceu todos os embates. Se não me falha a memória o placar é 71 X 0.

Pensando em termos de poder relativo, daqui a alguns anos (3 a 5)quando os submarinos, caças e tanques leopard a-5 estiverem operacionais o Brasil será a maior potência do hemisfério sul. Enfim teremos uma Marinha oceânica!

Marcelo L. disse...

Helvécio JR e Mauricio, existe sim problemas no Rafale e é complicado comparar os caças, mas uma análise feita pela Eurofighter GmbH no quesito “efetividade na defesa aérea" em uma luta projetada contra Sukhoi Su-35, o Rafale ficou bem a frente do F18 e dizem que com mesmo armamentos inferiores aos três caças que ficaram a frente, um era o F22 que hoje é o melhor de mundo sem contestação e não pode ser vendido para nenhum país e nem partes de sua tecnologia.

Rafale é um caça de 4.5 geração, o que é um enorme vantagem a quem deve ser o caça do Brasil pelos próximos 20 anos. Nos fóruns militares fala-se que os pilotos preferiam o MIG (mesmo este perdendo o referido teste) e os engenheiros o Gripen, um já foi descartado, o outro não existe e dificilmente só com a compra brasileira seria entregue até 2014, sobre o Gripen NG dizem que o custo é menor, mas é complicado por que ele é um projeto sem nenhuma encomenda nem para Suécia, portanto leva a crer que parte do custo do projeto vai para nossa conta e não está agora contabilizado.

A questão do reamarmento na América Latina não vem do Brasil e sim de todos os outros países latino americanos (Chile, Colombia, Venezuela, Bolivia e Equador em destaque), o Brasil está apenas se reaparelhando com tecnologia e não fazendo compras de ocasião ou queimando dinheiro como a Venezuela. Quando a Argentina começar a tirar a defasagem dela, vai ser outra que vai ter que fazer grandes investimentos.

A compra americana e as derrotas comerciais francesas do Rafale vem muito dele ser um caça de uma geração + moderna que o F16 e F18, e principalmente das pressões de Washington. Aqui se fala que se comprarmos F18 devemos "exigir" dos americanos que antes conversem conosco em cada situação...ou seja, SIVAM II, a missão.

Acho o ponto do Mauricio válido, no passado compramos tecnologia francesa na primeira república defasada em comparação a alemã, mas não é bem o caso agora, seria ao meu ver no caso dos F18 que não tem mais novas compras previstas nos EUA e com custos de manutenção cada vez maiores por isso.

Marcelo L. disse...

Quanto a questão das compras e transparências, essa pelo incrivel que pareça está sendo até muito até muito do bastidor está sendo ventilado na internet sobre tudo...mas, a modalidade é compra direta de armamentos e não concorrência e não se disse que comprava, mas em nota: "levando em contra a amplitude das transferências de tecnologia propostas e das garantias oferecidas pela parte francesa, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou a decisão da parte brasileira de entrar em negociações com o GIE Rafale para a aquisição de 36 aviões de combate.”

Parece a mesma coisa, mas no direito não o é...já li as razões da nota e parece que com ela a França ficou melhor colocada em outras vendas.

Mas, o que se diz é que deu Rafale mesmo, agora é só esperar a revista do fim de semana...

Mário Machado disse...

Não é só a modalidade da compra dos caças, mas entra ai as melhorias nas instalações, equipamentos... uma série de outras coisas que as ratazanas que conhecemos estão ali, prontas pra atuar, por Deus, até bicicletas e bebedouros já fraudaram.

Mário Machado disse...

E uma compra que é um casamento de no minimo 20-30 anos se não mais com um tecnologia tem que ser feita com toda a calma e de preferencia sem infiltrações ideológicas (isso é possível?).

Pq todos sabemos que caças são apenas uma parte de uma plataforma de armas que tem funcionar conjuntamente, como radares, navios, gps, equipamentos de suporte a tropas aviões de apoio a infantaria, transportes...

Falta creio, a reflexão maior sobre o papel da defesa. Quais as premissas de emprego que são trabalhadas? Isso tudo fica muito nas "nossas" mãos e pouco difundido para o povo brasileiro, em geral.

Mauricio Santoro disse...

Caros,

com relação ao desempenho do Rafale, estou muito em função dos debates nos sites militares, como o Defesanet, e me parece que a questão tem alguns pontos controversos.

Polêmicas à parte, acredito que o essencial é que o pacote de compras militares de fato colocará o Brasil num patamar bastante superior ao dos países vizinhos, e nesse sentido estou curioso para ver qual será a reação no resto da América do Sul.

A confusão entre o presidente e o Ministério da Defesa parece que se agravou, ou pelo menos as notas oficiais estão enlouquecidas e contraditórias.

A esperar, a confirmar...

Helvécio Jr. disse...

Maurício resumiu bem.

A questão de projeções de combate entre caças fica no campo das "projeções" somente. E é claro que todos caças tem pontos fracos em termos comparativos.

O ponto central é a superioridade militar brasileira no hemisfério sul pós-Plano de Defesa.