terça-feira, 29 de setembro de 2009

A Sombra do Futuro



"Não se pode fomentar uma insurreição política de dentro de uma embaixada. Estamos brincando com fogo aqui."

Jorge Castañeda, sociólogo, ex-ministro das relações exteriores do México

"Será que também consigo me hospedar com 70 amigos numa embaixada brasileira? Tava pensando em ficar na da Itália."

Hélio de La Peña, humorista brasileiro

Imaginem que os Estados Unidos intervenham em um pequeno país da América Latina e permitam a um aliado - anteriormente deposto por um golpe, e rejeitado pela maioria da população - usar a embaixada americana como base para tentar retornar ao poder. Tudo em nome da democracia, claro. Só que, simultaneamente, Washington segue apoiando ditaduras na região. Qual seria a reação da opinião pública do Brasil?

Trabalhei vários anos com cooperação internacional na América Latina e conheço o receio que nossos vizinhos sentem das ações do país. Um Brasil que hoje age para restaurar Zelaya em Honduras pode amanhã intervir na Bolívia ou no Paraguai para colocar no poder um presidente qualquer (de direita ou esquerda) que lhe seja conveniente. O Itamaraty inaugurou um precedente perigoso, que despertará medos profundos na região.

O Brasil não é uma grande potência. Seus interesses nacionais são melhor servidos por uma ordem multilateral na qual as normas e princípios jurídicos importem. Minar os tratados (como a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas, observem o artigo 41) é atentar contra si mesmo.

É legítimo que o Brasil procure maior influência nos assuntos internacionais e a experiência bem sucedida do país em conjugar políticas sociais e estabilidade econômica contribui neste momento de crise global. Mas a inserção externa deve ser pautada por respeito às regras multilaterais, moderação e a melhor tradição de resolução pacífica de conflitos. Essa tem sido a tônica na história republicana brasileira (em contraste com o intervencionismo militar do Império), com negociações bem-sucedidas envolvendo Bolívia, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Suriname e Venezuela.



A América Central não tem sido região importante para o Brasil. No período de maior turbulência, das guerras civis da década de 1980, o país se contentou em jogar um papel secundário, no Grupo de Apoio ao Processo de Contadora, a iniciativa diplomática capitaneada pelo México, que ajudou na moderação daqueles sérios conflitos. Nos últimos anos, os interesses brasileiros na região cresceram com perspectivas ligadas aos biocombustíveis e às obras de infraestrutura do Plano Puebla-Panamá. A vitória de partidos de esquerda na Nicarágua, El Salvador e Honduras aproximou esses países do projeto político de Hugo Chávez e também foram vistos com simpatia pelo governo brasileiro, dentro do ideário de uma integração latino-americana conduzida por movimentos progressistas.

A preservação da democracia e da estabilidade política na América Latina são do interesse nacional brasileiro, e referendados pelos tratados diplomáticos regionais, como a Carta Democrática da OEA. Faz todo o sentido a condenação ao golpe em Honduras e os esforços do governo Lula para reestabelecer Zelaya na presidência. Mas é preciso observar princípios fundamentais: o respeito ao multilateralismo e às normas internacionais, a busca de soluções negociadas e a necessidade de concessões por parte de Zelaya, em particular o cancelamento de seu projeto ilegal de reformar a Constituição por meio de plebiscito, que motivou o golpe que o derrubou.

As ações dos últimos dias foram péssimas para o Brasil e significam a erosão da credibilidade diplomática do país na América Latina, ameaçando um patrimônio sólido contruído com dificuldade ao longo de décadas de bom trabalho. O ultimato que o governo hondurenho deu ao presidente Lula coloca o Brasil em situação difícil.

Enquanto isso, a crise se agrava em Honduras. Os golpistas decretaram Estado de Sítio, invadiram órgãos de imprensa contrários ao regime e impediram a entrada de uma missão da OEA. Nos bairros pobres da capital, organizam-se milícias pró-Zelaya.

29 comentários:

DKRC disse...

Santoro,

Como o Brasil deveria ter agido entao? Recusado a entrada do Zalaya na Embaixada e mandando ele procurar outro lugar pra ficar.

O Brasil esta defendendo a volta dele ao poder, nao nao esta invadindo o pais. Os meios diplomaticos estao sendo usados, mas quem recusa utilizalos e exatamente os golpistas em honduras.

Seria pior para a tal credibilidade brasileiro se recusa-se a entrada do presidente na embaixada, nao?

ps: desculpa a falta de acentos. problemas no teclado.

Mário Machado disse...

O Brasil deveria ter sido responsável e ter condicionado a entrada dele ao status de asilado, ter pedido o salvo conduto e ter retirado ele do território.

Esse quadro de guerra civil em um país dominado pelas temidas e perigosas "maras" pode derrubar toda a América Central.

Mauricio Santoro disse...

DKRC,

Concordo com o Mário. O retorno de Zelaya foi uma atitude imprudente.

O presidente deposto esperava que houvesse uma rebelião popular a seu favor (como a que houve em Caracas, em 2002), mas os protestos de rua se mantiveram em menor escala e não derrubaram o governo golpista.

O correto diante do pedido de Zelaya seria dar lhe asilo e retirá-lo do país.

A credibilidade se conquista pelo apego às regras e a ação de comportamentos estáveis e previsíveis. O caráter impestuoso da diplomacia brasileira nos últimos dias não contribui em nada para isso.

Abraços

carlos disse...

"se Zelaya é o presidente legítimo de Honduras e está na embaixada apenas na condição de hospede, como considera o governo Lula, então o absurdo estaria em tolher-lhe a palavra e o direito de usá-la em defesa da causa democrática. … Jânio de Freitas-folha".

" ...a gestão da crise dependerá fundamentalmente da perícia diplomática brasileira e do cuidado técnico em não contribuir para o aprofundamento da violência militar. Não há razões para suspeitar que o Itamaraty seja incapaz de enfrentar o ineditismo desse desafio, apesar da resposta covarde dos golpistas e dos saudosistas de regimes militares. Estes não apenas em Honduras. (*) Carol Proner é doutora em Direito, Professora de Direito Internacional- www.cartamaior.com.br"

salve, santoro,

o post, a meu ver, é por demais técnico dada uma situação política imprevisível e inusitada para nossa diplomacia. se o brasil almeja ser protagonista internacional, ele vai ser testado como está sendo hoje.

uma passada nesses últimos minutos na blogosfera, parece indicar que a nau dos golpistas está fazendo água, basta escutar a saudação do michelleti para o presidente lula.

o diabo não é tão preto como a gente imagina, santoro. e o roteiro desse enredo está mais para o cinema novo do que para filme de stallone.

abçs

Mauricio Santoro disse...

Salve, Carlos.

Sou um administrador governamental de carreira. O respeito às leis é um dos pilares da minha atuação - e a única proteção que os pobres cidadãos brasileiros têm contra minhas preferências e preconceitos pessoais. O mesmo deve valer para dirigentes políticos, como os secretários e ministros para quem trabalho.

Respeitar o Direito Internacional não é um assunto técnico, mas uma exigência da Constituição brasileira. E crises políticas não significam a suspensão das leis. Ainda que com freqüência essa seja sua conseqüência mais sombria.

Como cidadão, não concedi a nossos dirigentes políticos qualquer licença para violar o direito internacional em nome de seus objetivos políticos, por mais nobres que esses possam ser. E Honduras é uma crise diplomática, não uma ameaça à segurança do Estado brasileiro.

A credibilidade internacional do Brasil foi conquistada pelo uso habilidoso de negociações pacíficas e do direito internacional. Sem esses recursos, seremos apenas uma República de Bananas. A cobertura da imprensa estrangeira a crise tem destacado mais a violência política em Honduras do que a atuação do Brasil, mas me parece que a aposta intempestiva com Zelaya fará a reputação do país sair arranhada.

Abraços

Helvécio Jr. disse...

Concordo com o post jogador e também com o Mário.

A velha máxima parece ser mal compreendida pela diplomacia ideológica brasileira. "os interesses são definidos em termos de poder" Na prática, que projeção de poder se busca com a ingerência em Honduras?

Perde-se prestígio. É contraproducente. Além disso, vislumbra-se uma posição em termos de poder que o Brasil não tem. Lições clássicas de Morgenthau! Será que o Amorim leu?

O Brasil já atua na ilegalidade ao permitir que Zelaya permaneça na embaixada sem status definido e usando sua varanda como púlpito para comícios. Violou as convenções de Viena e de Caracas como você bem recordou.

seja qual for o resultado, a atuação brasilera já foi maculada.

Anônimo disse...

É curioso como todos os defensores do golpe em Honduras adoram citar o tal do plebiscito que Zelaya tentava convocar para rever a Constituição do paí em relação à reeleição. O que eles não explicam, provavelmente porque não sabem, é que o plebiscito estava previsto para o mesmo dia das próximas eleições presidenciais. Portanto, Zelaya não teria como se beneficiar de seu resultado.

Leonardo Bernardes disse...

Santoro,

Eu entendo sua preocupação. Mas sua crítica à posição brasileira ficou demasiado abstrata: "Mas é preciso observar princípios fundamentais: o respeito ao multilateralismo e às normas internacionais, a busca de soluções negociadas e a necessidade de concessões por parte de Zelaya, em particular o cancelamento de seu projeto ilegal de reformar a Constituição por meio de plebiscito, que motivou o golpe que o derrubou"
Ou o Brasil intervêm ou se mantém apenas como um expectador esforçado mas de ações mínimas. O que parece estranho é condenar a intervenção, que até agora parece bem razoável apesar de algumas falhas -- e mesmo assim sugerir outra, de orientação diversa e que parece não contemplar a absoluta dissimetria entre os erros de Zelaya e os erros dos golpistas.

Repito o que tenho dito: as constituições não prescrevem a ruptura dos próprios sistemas legais que inauguram. Um golpe é o mais forte rompimento institucional que pode sofrer um Estado e ele só teria legitimidade se as próprias instituções estivessem ameaças por algum poder. Os projetos ilegais de Zelaya deve ser combatido dentro do domínio das leis e dispositivos jurídicos. Ninguém que não tenha forte influência sobre aparelhos repressivos pode levar adiante um projeto ilegal -- a ameaça às instituições foi um mero pretexto para o golpe, já que, como se vê, a força estava no lado oposto. Aliás, o golpe já supõe a absoluta ineficiência dos soluções internas, soberanas, de um pais.

As ilegalidades de Zelaya são ainda ilegalidades. A ilegalidade é contemplada e prevista pelas leis de qualquer país, que estabelece punições e meios de controle. O golpe não, é uma intervenção externa e estranha a qualquer sistema de justiça, porque imprevista, não regulada, asistémica.

Isso quer dizer que ainda que Zelaya avente projetos ilegais, impedi-los ainda é uma questão interna, relativa à força das instituições hondurenhas. Por mais condenáveis que eles sejam, não se pode condicionar o retorno do presidente a essa desistência -- pois isso seria o mesmo de incluir o golpe no rol dos instrumentos legítimos. Isso sim seria um atentado às ordens nacionais e internacionais. Se houver acordo quanto ás concessões que você sugere, tanto melhor, mas indispensável e primordial é desfazer o governo que se constituiu ilegitimamente.

Mário Machado disse...

Ninguém defende o golpe a questão é clara ao propor algo ilegal, declarado ilegal pela corte suprema e após isso, dar uma ordem ao Exercíto de desconsiderar a constituição e a ordem da corte suprema é o quê, senhor anonimo?

Eu não apoio golpe, mas não vejo nessa questão a existencia de um golpe.

Querer polarizar entre apoiar golpe ou apoiar democracia é desvirtuar a questão e abandonar a lógica.

Mauricio Santoro disse...

Salve, Helvécio.

O discurso diplomático brasileiro tem muita dificuldade em lidar com questões de poder. Às vezes acho que tem dificuldades também de defini-lo concretamente. Vide, por exemplo, os debates sobre a participação do país no Conselho de Segurança.

Não sei se o Amorim leu o Morgenthau (depois que descobriram que ele mentia sobre ter o PhD pela London School, tudo é possível) mas o S. P. Guimarães adora o Measheimer. Curioso, não?

Anônimo,

A questão do plebiscito diz respeito à legalidade do ato de modificar a Constituição, que os defensores do golpe citam como razão para a deposição de Zelaya - que eles, aliás, consideram legal.

Salve, Leonardo.

Não me parece que o dilema brasileiro esteja limitado pela dicotomia espectador/intervenção. O caminho que o país vinha seguindo, de agir pela via multilateral, da OEA, estava excelente. A mudança se deu porque o Brasil foi arrastado pelos projetos pessoais de Zelaya, ao aceitá-lo na embaixada, com as conseqüências que observamos.

Abraços

Leonardo Bernardes disse...

Você está querendo dizer então, Mário, que o afastamento providenciado pelo exército é a maneira correta (legítima) e prescrita em lei para lidar com os "projetos ilegais" de Zelaya?

Se é, de fato não é um golpe, se não, É UM GOLPE. O golpe é uma alternativa fora da lei para lidar com problemas. Pouco importa se Zelaya pretendia ou não levar a cabo um plebiscito ilegal, se um Estado está minimamente em ordem, já se supõe que ele tenha dispositivos legais para lidar com afrontas ao seu ordenamento. A intervenção militar não é a alternativa pra esse tipo de situação -- há vias políticas e institucionais. O que poderia ser resolvido no campo de uma ordem legal agora ganhou dimensões exorbitantes, exteriores a ela. Pelo ímpeto golpista (visivelmente maior que o do próprio Zelaya) dos que se opunham ao presidente.

Isso é golpe! Repito: há uma dissimetria entre os atos de Zelaya e a intervenção do exército, não entender isso é incorporar o golpe no rol das ações legítimas.

Helvécio Jr. disse...

Eu entendo e concordo com a avaliação do Leonardo. Mas a questão da legalidade e interpretação constitucional seria uma questão deméstica hondurenha a ser resolvida. Quando a questão passa a ser internacional, há uma ingerência brasileira equivocada tanto do ponto de vista do direito internacional quanto do ponto de vista das relações internacionais. O foco do Maurício é a atuação brasileira no caso.
O que acho que você pode ter sobrevalorizado é o fato de haver "vias institucionais, poderes isntituidos, etc..." quando se sabe que a realidade política de Honduras não er abem a de uma democracia anglo-saxã. Trata-se de uma democracia frágil. O uso da força para atingir objetivos políticos não é incomum nesses casos.

Leonardo Bernardes disse...

Helvécio,

Eu compreendo que num país como Honduras a força seja mobilizada frequentemente como arma política, como também entendo parte das críticas ao comportamento das autoridades brasileiras. Mas eu acho duas coisas

1. É especialmente perigoso para Honduras permitir que vias alternativas se consolidem como legitimas. Assim se desenha o cenário perfeito para a uma instabilidade política indesajável. Porque, é óbvio, sem regulamentação, todo mundo se achará no direito de usar um quinhão de força para atingir uma justiça que não estará mais prescrita na letra da lei. Não há melhor meio de fortalecer as instituições do que acreditar nelas e agir por seu meio.

2. A diretriz das ações do Brasil deve se deter exclusivamente no interesse de restituir o governo legitimamente eleito. Se Zelaya vai ou não fazer concessões quanto aos seus planos de realizar um plebiscito supostamente ilegal -- essa sim é uma questão que não nos diz respeito. Reconhecer os erros de Zelaya e denunciar os abusos dos seus opositores não são coisas incompatíveis, mas eu acredito que aos atores internacionais não cabe a tarefa positiva de palpitar sobre o modo como o país deve lidar com as pretensões ilegais do presidente, apenas impedir que a solução passe por uma ruptura institucional (tarefa negativa). É nesse sentido é que eu acho que parte das ações do Brasil se salvam, porque reconhecem o peso da ruptura, com maior ênfase do que em relação àquilo que teoricamente a justificou.

Agora, de fato tudo isso precisa ser negociado -- sem sombra de dúvidas.

Mário Machado disse...

É supostamente ilegal, quando declarado ilegal pela Corte Suprema?

Murillo Victorazzo disse...
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Murillo Victorazzo disse...
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Anônimo disse...

Caros amigos,

Não tenhos as leituras dos Srs, mas na minha concepção tirar um sujeito - no caso o presidente - da cama sob a mira de fuzis e despachá-lo para outro país é golpe.

A Suprema Corte autorizou? Autorizou. Ele quis mudar a constituição? Quis. Mas qual o problema.Não entendo esse fetichismo com as leis. Elas estão aí para servirem e normatizarem a sociedade e não para engessá-la. De mais a mais, sempre vai ter um advogado para defender uma teses esquisita.

E - last, but not least - hoje o presidente golpista disse numa entrevista que o "esquerdismo" de Zelaya foi um dos motivos para que ele sofresse o golpe...

Abçs a todos.

Leonardo Bernardes disse...

Mário,

É bom lembrar que o "suposto" é um termo acessório na minha argumentação. Ela mantém-se em pé mesmo depois de suprimido esse meu pequeno gesto retórico. Só pra ficar claro que não estamos aqui discutindo a objeção que eu fiz, mas discutindo um novo aspecto.

Bem, o "suposto" foi apenas um aceno à possibilidade de que a decisão do Supremo não tenha se pautado pela letra da lei. O que tem circulado da Constituição de Honduras pela internet deixa ver claramente um texto bastante primitivo e cheio de lacunas. Ora, assim não se constitui a segurança imprescindível para impedir que certas ações abruptas se realizem com pretensão de legitimidade. A regulamentação restringe com clareza o campo de ação e as respostas institucionais a determinadas irregularidades. Sem isso o espaço fica vazio e arrisca ser preenchido até por um golpe de estado. Mas se, ao contrário da minha suposição meramente acessória, a decisão do Supremo está sim amparada por determinações da lei -- retiro o que eu disse. É que é tentador pensar, diante do desenho confuso que são as leis e a política em Honduras, que as coisas por lá se misturam.

Mesmo aqui elas já não são claras, imagine você..

Murillo Victorazzo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Murillo Victorazzo disse...

Parece que misturar duas situações é algo bem tentador nessa discussão. Para mim, está bem claro que houve um golpe. E o golpe se fez pelo método truculento de expulsar um cidadão hondurenho do seu país, algo proibido também pela Constituição, e a ausência de direito de defesa. Não sou advogado, mas se a "prisão", sob fuzil, de madrugada invadindo o palácio presidencial, foi "preventiva", o mínimo exigido seria que Zelaya ficasse preso no país, com direito de se defender dos supostos crimes. Parece não há dúvidas de que Zelaya infringiu leis, mas o rito processual parece ter deslegitimado tudo. A ponto de NENHUM PAÍS E ORGANISMO DO MUNDO reconhecer Micheletti. Parece muito presunçoso afirmar que o mundo se iludiu ao ver um presidente de pijamas preso, e que por isso, somente pela imagem, sem "saber direito" o que se passava, condenou a deposição. Quer dizer então que determinadas pessoas aqui são mais bem informadas que todas as diplomacias e órgãos? A Assembléia Geral da ONU por unanimidade repudiou o golpe! Uma matéria do UOL notícias de ontem sobre a "legalidade" do governo interino, reproduzido no meu blog, nos faz entender a postura da OEA, ONU e países: http://comdiploma.blogspot.com/2009/09/governo-de-honduras-e-golpista-e-nao.html

Outra coisa é o ato de abrigar Zelaya, esse sim algo merecedor de debate, com especialistas da área de R.I e D.I não chegando a um consenso. A ISTOÉ dessa semana traz matéria de capa bem moderada para analisar o fato. Para mim, parece que Brasil deu uma derrapada desnecessária no que vinha fazendo certo: o repúdio ao golpe.

Para finalizar, Maurício, creio que não me fiz entender direito no meu comentário no seu post anterior. É claro e natural que o chavismo e anti-chavismo fossem a linha condutora do noticiário. Lamento, porém, que se fique nisso, pois fica parecendo que apenas Brasil, Venezuela, Bolívia, Equador condenaram o golpe e pedem a volta de Zelaya ao poder. O governo Micheletti não é reconhecido por ninguém, e não se busca esclarecer em alguns veículos de comunicação isso. Fica um maniqueísmo no qual quem é contra o golpe só pode ser chavista. Lembra a época da ditadura, quando os que lutavam ou protestavam contra o regime eram logo tachados pelos militares de comunista. (Aliás, ainda hoje lê-se e ouve-se isso). Num mundo bipolar, tamanha polariazação, com boa vontade, era até explicável.

É interessante notar a diferença de cobertura da Folha e ISTOÉ para a da VEJA e O GLOBO.

Mário Machado disse...

Qualquer um sabe que cada conduta tem sua consequencia seperada, me parece pelo que li da Carta Magna Hondurenha que ao cogitar a consulta já se perde o mandato imediatamente.

Se sua expulsão foi ilegal que se puna os responsaveis, mas isso não anula o fato inicial. Ninguém advoga a maneira como ele foi deposto agora transformar isso em argumentação para defender o papelão do Brasil ao permitir que a embaixada seja ocupada por 70 correligionários (e eram mais que ainda por cima não dividiam comida com os brasileiros lá)é desvirtuar uma discussão de política internacional.

É repetir os talking points que como vimos pelos telejornais está numa campanha de relações públicas pra defender essa decisão.

E isso é muito mediocre pra quem teve a rara oportunidade de estudar e poder aprender a pensar.

Ai se perde tempo em picuinhas e tecnalidades e não se analisa o que estar por vir no continente e como a atuação do Brasil dessa maneira abrupta e partidária.

Os jornais estão por sinal cheios de comparações esdruxulas e outras coisas assim, mas pouca reflexão verdadeira.

Vão transformando a coisa num "flaxflu" e vai se perdendo tempo e espaço que seria melhor aproveitado com um escrutionio público da atuação internacional do Brasil.

Leonardo Bernardes disse...

Repito: a Constituição de Honduras é primitiva e cheia de lacunas. Prever a destituição de um presidente ainda não é dizer o modo como isso se dará legitimamente. Você está apenas fazendo desse fato o expediente para explicar o golpe. Prova disso é que em seguida você diz: Se sua expulsão foi ilegal que se puna os responsaveis. Como, se os responsáveis tomaram o poder? Como se pune alguém que simplesmente subverteu a ordem? Essa proposta só pode ser brincadeira. Zelaya poderia ter sido punido legitimamente. Seus opositores escolheram o golpe. Uma coisa é reconhecer os erros do presidente, outra é legitimar as pretensas ações corretivas, ilegítimas e antidemocráticas. Ou sera que a Constituição hondurenha prevê também toque de recolher, repressão, fechamento de canais de rádio, estado de sítio?

Como ninguém advoga em favor da maneira como ele foi deposto? Há muita, muita gente, fazendo malabarismo pra conferir legitimidade ao golpe. É claro que há erros na atuação do Brasil, é quase inevitável quando um problema dessa dimensão cai no colo subitamente. Mas os erros não sobrepõem-se aos acertos, especialmente ao acerto de se posicionar contra os golpistas e de maior ênfase ao golpe do que aos atos ilegais, que devem/deveriam ser resolvidos no interior de um sistema institucional legítimo.

Eu não entendi a referência ao "E isso é muito mediocre pra quem teve a rara oportunidade de estudar e poder aprender a pensar." Quem decide quem aprendeu ou não a pensar? Não entendo como isso pode ajudar nessa discussão.

Outra coisa, tecnicidades e as supostas "puicinhas" não se descartam pela simples alegação de que elas não auxiliam a análise. Até para descartá-las é preciso o esforço de construir um argumento do qual sua irrelevância seja um corolário. A "tecnicidade" de distinguir entre atos ilegais, com os quais os dispositivos legais constituídos podem lidar, e rupturas institucionais é fundamental para definir o peso de cada coisa. E pra determinar aquilo que deve ser o primeiro passo rumo à solução. Isto é, pode ser que Zelaya faça as concessões que alguns querem, eu espero que faça, mas o primeiro passo, definitivamente, é restituir o governo democraticamente eleito, mesmo que seja para depois destitui-lo pelas vias oficiais e não por essas alternativas tortuosas que ainda hoje assombram nosso continente.

Repito: reflexão verdadeira não vem legendada. Ela é um processo de demonstração e se prova por argumentos (ou pela sedimentação da história). Não basta apenas dizer que isso é reflexão verdadeira e aquilo não é. E muita gente que também denuncia o Fla-Flu que se encena por trás do palco deu boas razões para, salvo críticas absolutamente corretas, como as do próprio Santoro, apoiar como um todo, no saldo geral, a atuação do Brasil. Elio Gaspari, Clovis Rossi e Sergio Leo UM e DOIS , entre eles. Dê uma olhada e você verá aí boas coisas a se pensar, bons argumento em favor da atuação do Brasil, e que, no entanto, não embarcam no Fla-Flu.

Mauricio Santoro disse...

Salve, Murillo.

Acho que entendi seu ponto. Dá um belo artigo sobre "frame", como a imprensa escolhe determinado enfoque para cobrir um tema político. Se compreendi seu argumento, no Brasil o enfoque é Chavismo/anti-chavismo, enquanto em outros países (digamos, Espanha) a abordagem é a questão da democracia na América Latina.

É verdade...E ruim para a análise do problema...

Abraços

Mário Machado disse...

Não vai ser no espaço para comentários do blog do Maurício que vou levantar e defender teses.

Tento comentar sinteticamente, em meu blog exponho o que penso de maneira articulada e longa.

Estava tentando levantar o ponto que do ponto de vista da ciencia que eu prático que são as relações internacionais é muito mais importante analisar a atuação do Brasil como ator regional em busca de expansão do poder e de outros atores relevantes, do que ficar discutindo item por item do ordenamento jurídico hondurenho, tampouco é produtivo cair no reducionismo que se é pró-golpe anti-golpe, democrata ou pró-ditadura, daqui a pouco alguém evoca um progressista versus reacionário.

Era esse meu ponto, que há algo mais importante na minha ótica a ser analisado que é a atuação brasileira.

E sim já havia lido tudo que vc colocou, não arroguei que meu brevissimo comentário é uma reflexão, levantei a óbvia necessidade de refletirmos sobre o assunto. Sem que isso seja um concurso para estar certo, para vencer e sim um debate para aprender e nisso não estava provocando, estava a fazer um legitimo mea culpa pelo reducionismo do meu comentário sobre o uso da palavra suposto, que parece (com enfase no parece) criou uma animosidade desnecessária. Não que eu tenha medo da confrontação intelectual, mas prefiro como todos o dialogo mais aprazivel.

E considerei uma perda de tempo uma picuinha debater sobre o suposto e não sobre o assunto.

Se quiser saber o que penso e tiver paciencia para lidar com um autor por vezes prolixo, convido que leia em meu Blog.

Leonardo Bernardes disse...

Desculpa se meu comentário soou algo hostil. Não era a intenção. Eu entendo e concordo com a leitura de que o Brasil pretende alargar seu campo de força -- e de que esse episódio serve a contento aos seus interesses. Só acho que mesmo considerando isso a atuação do Brasil se salva, no saldo geral.

A minha aparente pretensão de sustentar uma dicotomia (pró ou antigolpe) é apenas a expressão acidental da exigência de se reconheça que os dois erros -- de Zelaya e dos golpistas -- se situam em registros diferentes. E de que perder esse diferença, ao meu ver, é não enxergar que muitos presidentes na história ainda proporão projetos ilegais, e isso só se tornará um problema internacional quando as instituições forem postas de lado em nome de ações não instaladas no campo da legimitidade.

Bem, então depois eu passo no seu blog pra, se for o caso, a gente continuar a conversa.

Marcelo L. disse...

Prezado Mauricio,

Sobre confusão a vista...o senado pelo visto vai negar mesmo que Chaves adentre ao Mercosul...será que conseguiremos seguir com uma balança tão punjente com o real tão apreciado e taxas de importação que não serão tão vantajosas?

Anônimo disse...

Uma coisa tem que se dizer, para nossos vizinhos parece que a coisa vai bem calma se ver essa notícia hoje do La Nacion do Paraguai:

Caacupé, Cordillera.- En pleno acto de cierre del día de gobierno departamental, el presidente de la República, Fernando Lugo, se comunicó con su homólogo de Brasil, Luiz Inácio “Lula” da Silva, quien le devolvió la llamada y le comentó que su país será sede de las Olimpiadas en el 2016. Emocionado, el jefe de Estado se retiró del escenario y comenzó a conversar animadamente con su par, e inclusive trastrabilló con un tablón, lo que generó un fuerte ruido en el interior del Teatro Municipal de Caacupé. Este episodio le valió una reprimenda de parte de la viceministra de la Juventud, Karina Rodríguez, quien en ese momento estaba en uso de palabra, y le reclamó públicamente el motivo de su repentina ausencia del salón, por lo que el gobernante tuvo que explicar ante el auditorio la razón de su euforia.
“Antes una…a lo mejor no es interés de todos pero, ustedes estarán enterados que Brasil será la sede de las Olimpiadas en el 2016, y le hemos llamado al presidente ‘Lula’ que está todavía en Europa y nos ha dicho que esta olimpiada en América Latina es del Brasil, también es de Paraguay, también compartimos con él esa alegría y también, con nosotros la participación cercana”. Añadió que “por lo menos tendremos oportunidad por primera vez, los grandes países son los que siempre han tenido la oportunidad de hacer estas grandes olimpiadas, como China, Japón, EEUU, Inglaterra, y por primera vez un país de América del Sur, Brasil. Es un llamado, estaba emocionado el presidente ‘Lula’ (dijo) que Brasil también puede, que América Latina, América del Sur también pueden, y por eso fue la emoción Karina (Rodríguez)”, reveló el mandatario, dirigiéndose a la viceministra de la Juventud. Tras este episodio, el Presidente comenzó su discurso de despedida.

Marcelo L. disse...

A sou eu o anonimo da notícia sobre o paraguai e as Olimpiadas parece que deu um problema.

Abs,

Marcelo

Mauricio Santoro disse...

Caro Marcelo,

A campanha do Brasil foi construída reforçando todo o tempo o caráter sul-americano da candidatura... Quem sabe dá para fazer algo para envolver mais os vizinhos no evento? Seria algo inédito na história dos jogos, e muito bonito.

Abraços