segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Senhores das Finanças



Durante a crise asiática, Liaquat Ahamed olhou com apreensão uma capa da revista Time com fotografias de autoridades econômicas com o título “o comitê para salvar o mundo”. Economista formado em Harvard e Cambridge, com longa carreira como banqueiro de investimentos, Ahamed pensou no fracasso dos titulares dos bancos centrais dos Estados Unidos, Grã-Bretanha, França e Alemanha em enfrentar a Grande Depressão da década de 1930. Do desconforto nasceu o excelente livro “Lords of Finance: The Bankers Who Broke the World”.

As biografias dos quatro protagonistas se entrelaçam com os dilemas de seus países. Montagu Norman, da Grã-Bretanha, era um aristocrata herói da guerra dos bôeres. Émile Moreau, da França, tecnocrata da prestigiosa Inspetoria de Finanças. Benjamin Strong, dos Estados Unidos, executivo de Wall Street que participara da organização tardia do Fed, após a sucessão de crises que afligiu “o primitivo, fragmentado e instável sistema bancário” (p.52) do país. O personagem mais interessante é Hjalmar Schacht, raro exemplo de self-made man da Alemanha imperial. Brilhante, mas de ambição desmedida, que o levou à aliança com os nazistas. O economista John Maynard Keynes foi o contraponto ao quarteto, na qualidade de intelectual em ascensão cujas opiniões críticas desafiavam a ortodoxia com a qual os banqueiros tentaram lidar com a Grande Depressão.

Ahamed começa a narrativa com a crise financeira decorrente da Primeira Guerra Mundial. O conflito causou sérios distúrbios ao comércio internacional e ao funcionamento das economias européias. Para financiar gastos militares, os governos recorreram a aumentos de impostos, empréstimos (“O mais pernicioso e insidioso legado econômico da guerra foi a montanha da dívida na Europa”, p.100) ou simplesmente emissão monetária. A inflação disparou: os preços se multiplicaram por dois na Grã-Bretanha, três na França e quatro na Alemanha, abrindo caminho à catastrófica hiperinflação da década de 1920.



Outro problema: as excessivas reparações que os vencedores impuseram à Alemanha no Tratado de Versalhes. A impossibilidade de honrá-las levou a uma série de conflitos políticos, como a ocupação francesa da Renânia, fomentando o extremismo político. Tentativas internacionais de limitar as reparações – os Planos Dawes (1924) e Young (1929) – tiveram impacto positivo, mas criaram na Alemanha uma perigosa dependência ao capital estrangeiro. A fonte secou após a quebra da bolsa de Nova York e o medo de novo colapso da economia contribuiu para a vitória de Hitler.

O resto desta resenha está no site Meridiano 47.

5 comentários:

caligrafia disse...

Caro Maurício,

Fui seu aluno no ano passado na Pós em RI na UCAM, e estou num dilema que talvez você possa me ajudar. Eu tenho me interessado particularmente pela missão de paz da ONU na República Democrática do Congo (MONUC), acho que é possível desenvolver talvez um mestrado sobre o assunto.

Apesar da PUC ser um lugar onde um projeto desse fosse bem aceito, não tenho tanta convicção de que no porcesso seletivo eu tivesse êxito... enfim, eu gostaria de saber se você conhece instituições ou pessoas - seja em ciência política, RI - com as quais eu poderia conversar sobre assunto e mesmo me informar sobre bibliografia específica e quem sabe fazer um projeto.

Desde já agradeço,

Antônio Dutra

Mauricio Santoro disse...

Caro Antônio,

A PUC é a melhor opção para você, o Iuperj dificilmente aceitaria um projeto de pesquisa sobre missões de paz na África, por avaliar que essa é a seara do IRI-PUC.

Te recomendo a seguinte resenha:
http://www.nybooks.com/articles/23054

É uma discussão na New York Review of Books sobre livros recentes a respeito da crise no Congo.

Abraços

caligrafia disse...

Maurício,
mais uma vez,
obrigado.

Antônio

Patricio Iglesias disse...

Meu caro:
É interessante ver que, como tantos outros livros, se concentra nos paises centráis (o que ele considera centráis) e näo pensa nos graves efetos da crise nos outros paises e seus "Senhores das Finanças". Penso, por exemplo, nas enormes reformas financeiras do Pinedo na Argentina. Não fala nem um pouquinho siquer das medidas ao menos em outros paises européus?
Saludos!

Mauricio Santoro disse...

Caro,

Infelizmente, não. O que é curioso, visto que a Argentina teve um excelente banqueiro central nessa época, ninguém menos do que Raúl Prebisch. Mas aquela biografia dele que comentei no blog trata muito bem do tema.

Abraços