sexta-feira, 23 de março de 2012

De Volta à Era dos Golpes na África?

A era dos golpes militares está de volta? Nesta semana, o presidente do Mali foi deposto num movimento comandado por um capitão. Nos últimos meses, acontecimentos semelhantes ocorreram no Niger e nas ilhas Maldivas. Ainda é cedo para afirmar se estamos diante de uma tendência ou se é meramente o reflexo dos tempos turbulentos da crise econômica e até da Primavera Árabe. Sim, pois no caso do Mali, houve uma participação importante de mercenários que lutaram ao lado de Kadafi na Líbia e que voltaram ao país natal com armas, recursos e ambições de poder.

O presidente do Mali, Amadou Touré, deixaria o cargo em breve, após as eleições de abril. Ele foi acusado pelo líder dos golpistas, capitão Amadou Sanogo, de não ter apoiado suficientemente o Exército na luta contra rebeldes beduínos no norte do país. A insurgência é de fato forte e nas últimas semanas tinham ocorrido conflitos com soldados veteranos do conflito, que haviam protestado pelo tratamento que receberam. Contudo, o descontentamento com a guerra parece ser simplesmente um pretexto, até pela proximidade de Touré sair da presidência.

A situação no país está muito tensa, com os golpistas saqueando prédios públicos, lojas e residências particulares. O presidente deposto está desaparecido, aparentemente fugiu para não ser morto. Ele é general da reserva e havia dado um golpe na década de 1990, embora tenha sido importante na transição do Mali para a democracia. Curiosamente, o país era considerado um exemplo promissor na África. Há poucas semanas, quando visitei o Museu da Notícia em Washington, havia uma exposição sobre liberdade de imprensa situando o Mali como modelo para outras nações africanas.

A reação internacional tem sido ambígua: países como a França (ex-metrópole) e organizações internacionais como União Africana e Banco Mundial suspenderam a ajuda ao Mali, mas os Estados Unidos a mantiveram. Há rumores vindos dos próprios diplomatas americanos que o líder do golpe fez parte de uma unidade de elite enviada ao país para treinamento antiterrorismo. Não é difícil imaginar que ele irá se apresentar ao mundo como um campeão da luta contra a Al-Qaeda e outros grupos fundamentalistas. Os golpistas batizaram sua junta de “Comitê para Restaurar a Democracia e o Estado”, o que me leva a crer que pretendem permanecer um bom tempo no Palácio Presidencial...

2 comentários:

Marcelo L. disse...

Prezado Mauricio,

Acredito que tanto eu e acho que você mesmo já tenham escrito no seu blog sobre o problema do Gaddafi utilizar mercenários (e como perderam saíram fortemente armados) e a crise que retorno deles levaria, somando-se isso a crise da seca no Sahel, acredito que vai demorar um tempo para situação naquela região normalizar.

Havia muita crítica de favorecimento do atual governo do Mali a alguns grupos, portanto a instabilidade na região acho que era previsível.

Abraços

Maurício Santoro disse...

Salve, Marcelo.

Sim, já tínhamos conversado sobre o tema por aqui. Infelizmente foi algo que contribuiu para a crise no Mali e provavelmente irá afetar também outros países.

Abraços