sábado, 10 de novembro de 2007

Deus é brasileiro. O Diabo também.



Fui surpreendido, como todos, pela descoberta das gigantescas reservas de petróleo e gás no litoral. Nas expectativas mais pessimistas, elas aumentam o estoque petrolífero brasileiro em 30%. Nas projeções mais otimistas, colocariam o país no mesmo patamar da Venezuela. Em qualquer caso, as implicações são imensas: elevam o Brasil da autosuficiência para a condição de exportador de hidrocarbonetos, numa conjuntura de imensa valorização do petróleo.

O anúncio da descoberta foi feito em meio à crise de abastecimento energético. Astrólogos acreditam em coincidências. Cientistas políticos, não. Embora utilizemos ferramentas analíticas com mais ou menos o mesmo nível de precisão de Saturno na casa da Lua. É claro que o governo deu recado aos investidores e à opinião pública: a de que o crescimento econômico continuará, apesar das dificuldades atuais.

As perspectivas brasileiras são fascinantes: exportador de biocombustíveis e de petróleo, enorme potencial hidrelético (a ser ampliado pelas novas usinas no Rio Madeira), pesquisas na área nuclear (incluindo o submarino). Poucos países têm tanta segurança energética. No porte do Brasil, só a Rússia, pois EUA, Índia e China são extremamente deficitários em energia e dependem das importações que com freqüência vêm de regiões instáveis. E ainda vamos sediar a Copa do Mundo, liderar a OMC, participar como convidados do G-8 e da OCDE e eventulamente virar membros do Conselho de Segurança da ONU. Deus é brasileiro.

As reservas recém-descobertas seguem o padrão nacional: estão em águas muito profundas, de acesso difícil e caro. Isso significa que levará alguns anos até que sejam viáveis economicamente. A Petrobras estima que apenas em 2012, provavelmente levará mais. Em qualquer caso, significa que o atual governo, e seu sucessor, continuarão a enfrentar o problema de escassez de energia, sobretudo a de gás, com tudo que isso representa para a tensão com a Bolívia.

Mas o que me preocupa, no médio prazo, é como o Brasil gastará as enormes riquezas recém-descobertas. Se me permitem a paráfrase do grande filósofo político Paulinho da Viola, encontrar uma Venezuela ou uma Arábia Saudita no litoral é vendaval. Países petrolíferos quase sempre são exemplos de desperdício, corrupção, gastos inúteis e projetos faraônicos.

Outros países da América Latina entraram na euforia de reservas de petróleo que pareciam imensas e ao fim, não eram. Paraguai e Bolívia foram à guerra por causa de miragem do tipo. O México dos anos 70 implementou uma política econômica tão desastrosa por conta da esperança petrolífera que teve que decretar moratória da dívida externa poucos anos depois.

Claro, o Brasil não é um emirado do Oriente Médio e aqui há uma sociedade civil muito mais articulada e mobilizada. Graças a Deus, porque precisaremos muito dela para a fiscalização e o deabate sobre o que este país fará com os petrodólares que fluirão para cá daqui a alguns anos.

4 comentários:

IcaroReverso disse...

Sou leigo em política [opinião internética e desfocada], mas ouso dizer que investidas dos Estados nos surpreenderão muito além do que o corporativismo absoluto vaticinado. De qualquer modo, estarei de olho nesse blog para me informar sobre as políticas latino-americanas nesses conluios todos. Valeu.

Igor T. disse...

Queria conseguir enxergar com olhos tão esperançosos quanto os seus nossa sociedade civil muito articulada...

Vc viu as declarações de desdém do Chávez, no Chile? Olha eu não sei se estou de acordo com o fato de o diabo ser brasileiro...mas tenho certeza de que ele mora ao lado..

Abraço grande

Patrick disse...

Igor, acho que você precisa comparar o Brasil com uma diversidade maior de países. Assim, você perceberá que temos uma sociedade civil organizada. Menor do que gostaríamos que fosse, mas maior do que boa parte da concorrência. Comece pela turma do BRIC, por exemplo.

Mauricio Santoro disse...

Caro Ícaro,

creio que a esperança é mais uma questão de temperamento do que de especialização profissional. Experiências internacionais anteriores me levam a ficar de pé atrás com o petróleo. Para não falar do sheik fluminense, o emir Anthony Garotinho. Que Alá nos proteja.

Salve, Igor.

Ainda não vi a declaração do Chávez, mas contava no relógio os minutos até ele proclamar a futilidade das reservas brasileiras. Daqui a pouco o Morales faz o mesmo, se é que já não o fez.

Olá, Patrick.

Acho que é por aí mesmo. Em comparação com os outros BRICs, até que estamos bem razoáveis.

Abraços