sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Inés da Minha Alma


Este ótimo romance de Isabel Allende conta a história de uma heroína chilena esquecida: Inés Suárez, uma das poucas mulheres a participar da conquista do país, no século XVI. Allende narra a epopéia em primeira pessoa, como autobiografia que Inés escreve, à beira da morte, para sua filha adotiva. O resultado é um painel fascinante, de aventura e paixão, dos primeiros anos da presença espanhola na América.

Inés é uma mulher do campo, rude e com pouca instrução, mas inteligente, observadora e habilidosa – na cozinha, na costura e na cama. Ela se casa com um galanteador fanfarrão, que parece um personagem de Jorge Amado, observa o diplomata indiano (e aficcionado pela América Latina) Rengaraj Viswanathan, em cujo blog li a resenha que me despertou o interesse por este romance. O marido a engana repetidamente e acaba por partir para a América, mas não sem antes ensiná-la a ser uma grande amante. Anos mais tarde, ela se cansa da falta de notícias e embarca para o Novo Mundo. Menos por amor e mais pelo descontentamento com o tédio e a falta de perspectivas de sua vida.

Na América, Inés passa rapidamente pelo que hoje são Venezuela, Colômbia e Panamá, e acaba na Cidade dos Reis – a Lima do conquistador Francisco Pizarro, uma sociedade de imensas riquezas, mas também de corrupção e violência. Mas é lá que ela conhece Pedro de Valdivia, militar veterano das guerras do Imperador Carlos V em Flandres e na Itália. Os dois se apaixonam e Inés se lança ao grande sonho de Pedro: a conquista do Chile, que no passado fora o limite austral do império Inca.

Isabel Allende é estupenda contadora de histórias e recria de modo bastante verossímil os detalhes do alvorecer da dominação colonial espanhola – a violência, o luxo desmedido, a ânsia de mando, os choques e trocas entre as culturas européias e os povos indígenas. As batalhas são descritas com exatidão de arrepiar, seja o célebre saque de Roma, sejam as campanhas dos conquistadores espanhóis contra os mapuche chilenos. Índios devotados à guerra que não se dobraram nem diante dos Incas, e logo aprendem as táticas da guerra moderna européia e passar a utilizá-las contra os invasores, com eficácia arrasadora.

Em muitos aspectos este romance se parece a “Desmundo”, de Ana Miranda, que também narra em primeira pessoa a saga de uma mulher européia nos primeiros anos da colonização do Brasil. Só que a heroína de Ana é uma órfã branca enviada de Portugal para povoar a terra com descendentes de europeus, sua história é de uma vítima constante e a metáfora que predomina é a da colonização como estupro. Inés é uma mulher ativa, senhora do próprio destino, protagonista do nascimento de uma nova colônia.

O único “senão” da forma escolhida por Allende é que a autora se sente incomodada com os aspectos mais brutais da conquista do Chile e às vezes força a mão para transferir esses sentimentos a sua heroina, fazendo que ela se manifeste criticamente aos castigos mais cruéis impostos aos índios. Gostei mais do método que Ian McEwan usou em “Na Praia” - um narrador distante e irônico que nos mostra como certos hábitos do passado são hoje ridículos, inaceitáveis e trouxeram tanto sofrimento inútil.

2 comentários:

Igor T. disse...

Mau,

Vim aqui crente que ia contar uma novidade, mas já vi que vc foi mais rápido do que eu.

"Leões e Cordeiros": o filme do ano, sem chance de concorrência para nenhum outro. Sem mais o que dizer...

Abraço grande

Mauricio Santoro disse...

É uma obra-prima, meu caro. Mas estou impressionado com a má recepeção da imprensa. Acho que os caras simplesmente não entenderam o filme.

Abraços