sexta-feira, 8 de agosto de 2008

As Olimpíadas na China


A abertura das Olimpíadas de Pequim foi um espetáculo impressionante que fortaleceu o propósito do governo chinês de usar os jogos para se afirmar como grande potência em ascensão. O acaso ajudou, e muito: com a Rússia invadindo a Geórgia, a situação dos direitos humanos na China recua ainda mais em termos de relevância para a política internacional.

O governo chinês tem reprimido a oposição com particular intensidade às vésperas dos Jogos. Prendeu dissidentes, apertou o cerco à imprensa e colocou 100 mil soldados e policiais para fazer a segurança em Pequim. Aglomerações públicas foram desaconselhadas e os meios de comunicação incentivaram os habitantes da capital a assistir a abertura pela TV, em suas casas. Mas em sua face internacional, procura abrandar posições nas crises diplomáticas em que está envolvido, como Sudão e Myanmar.

Não chegou a se concretizar um boicote às Olimpíadas de Pequim, como ocorreu nas de Moscou (1980), realizadas logo após a URSS ter invadido o Afeganistão. Ainda assim, houve problemas para o governo chinês. A chanceler da Alemanha e o primeiro-ministro do Canadá se recusaram a comparecer à cerimônia de abertura. O presidente da França oscilou, cogitou em se reunir com o Dalai Lama, mas acabou mandando dona patroa Carla Bruni ao encontro do líder tibetano. Protestos contra a China ocorrem em diversos países, mas até agora nada de grande porte. O maior risco, no curto prazo, é o terrorismo: o atentado separatista nos territórios de Xianjiang e o medo de algo semelhante em Pequim.



Críticos comparam as atuais Olimpíadas com as que Hitler organizou em Berlim, em 1936, para celebrar a recuperação do status de potência da Alemanha. Vejo exagero na analogia: os nazistas tinham um projeto político internacional de guerra e expansão, a China tem atuado de maneira mais equilibrada. Seu regime político é uma ditadura, mas não genocida: os tibetanos são reprimidos, não exterminados como foram os judeus sob Hitler.

Há, no entanto, semelhanças perturbadoras. A propaganda nazista encontrou uma expressão artística genial nos filmes da cineasta Leni Riefenstahl, inclusive o que ela fez sobre os Jogos Olímpicos de Berlim. O governo chinês também achou um mestre das artes: Zhang Yimou, certamente o mais célebre dos diretores chineses contemporâneos, e a meu juízo um dos melhores cineastas da atualidade. Filho de um militar nacionalista, ele foi muito perseguido na juventude e seus primeiros filmes sofreram censuras e ataques das autoridades comunistas. Nos últimos anos ele se tornou uma celebridade pró-sistema, ao ponto de ser nomeado diretor artístico da cerimônia de abertura. Ele havia convidado Steven Spielberg para seu consultor. O americano aceitou inicialmente, mas depois renunciou ao posto.

Embora as Olimpíadas tenham começado bem para a China, é cedo para dizer se o regime será bem-sucedido em seus propósitos. Basta lembrar os Jogos da Cidade do México, em 1968: programados para ser a celebração do crescimento econômico do PRI, se transformaram no marco do declínio daquele sistema, quando os protestos estudantis na praça de Tlatelolco foram reprimidos num banho de sangue.

Será que uma tragédia parecida pode acontecer em Pequim?

3 comentários:

Diego Viana disse...

Sem esquecer que em 36 os judeus ainda não estavam sendo exterminados. Aliás, longe disso. Eram só reprimidos: confisco de bens, expulsão de universidades etc. O extermínio propriamente dito começou lá por 42...

Ramon disse...

Salve Maurício,

com todos esses acontecimentos, algumas coisas me chamaram a atenção e me deixaram com alguns pensamentos...

O Pres. W Bush ao falar mas não confrontar a China no tocante aos DH, mostra a grande "saia curta" que os EUA se encontram atualmente e ainda uma falta de certeza em como lidar com os chineses. Ao mesmo tempo que querem enquadra-los na dança, não podem também ser grossos no pedido, têm que pedir com uma gentileza...

Uma coisa que não sei porque só chamou a minha atenção. Comentei com o pessoal por aqui e so se atentaram para o fato depois que eu falei. O que eram aqueles militares carregando a bandeira olímpica?! A bandeira chinesa até me chamou a atenção, por achar que não seria tão apropriado, mas deixei passar. Com a bandeira olímpica pensei neles falando, "hamornia sim, mas estamos na China!". Militares e olimpiadas me lembraram outro tempo...

Outro ponto é esse caso da Ossetia do Sul. Mas que "timing" para se movimentar em direção à Georgia hein?! Você comentou sobre a atenção que o evento poderia tirar da discussão dos DHs na China, mas fiquei com algumas dúvidas se os russos não pensaram ao contrário. Em colocar-se em movimento agora pois o mundo estaria justamente de olho na China... vamos ver o desenrolar...

E no mais? Como está a mudança para o Planalto?

Grande Abraço,
Ramon

Mauricio Santoro disse...

Salve, Diego.

As Leis de Nuremberg, que oficializaram o racismo nazista, são de 1935, portanto já estavam em vigor quando as Olimpíadas aconteceram. Sem contar que a propaganda de Hitler fazia do anti-semitismo um dos pilares centrais de sua ideologia.

Mas você tem razão quanto ao extermínio físico, que foi posterior. Houve os massacres da Noite dos Cristais (1938) e depois o início da matança sistematizada após a invasão da URSS, em 1941.

Olá, Ramon.

A Samantha Power escreveu que a situação dos DH sob Bush criou um vácuo político que impede ações mais decididas dos EUA contra a China. Concordo em parte, porque os interesses econômicos jamais permitiriam uma oposição rigorosa. Talvez algo ligado ao protecionismo comercial, quem sabe...

Não é a primeira vez que os russos aproveitam uma crise internacional para acertar as contas do Império, isso também aconteceu em 1956. Mas a imprensa internacional (ao menos a britânica, minha favorita) está dando destaque total à guerra no Cáucaso. Voltarei a escrever sobre o tema aqui no blog.

Quanto à mudança, ainda tenho alguns meses pela frente.

Abraços