sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Um Teólogo na Presidência



A teologia da libertação foi a origem de muitos religiosos latino-americanos que se tornaram políticos: ministros na Nicarágua, líderes guerrilheiros na Colômbia, assessores presidenciais no Brasil. Agora o ex-bispo Fernando Lugo chega à presidência do Paraguai. Curiosamente, em momento em que a esquerda católica está em declinio profundo, assolada por movimentos rivais dentro da Igreja, como a Renovação Carismática, e pelos evangélicos.

Quando leciono sobre o Paraguai, os alunos costumam perguntar se a influência dos jesuítas ainda é forte no país, ou se Lugo é um caso isolado. Respondo com algumas histórias ouvidas e vividas na nação guarani. A América Latina é hoje um continente bastante urbanizado, mas no Paraguai cerca de 40% da população mora na zona rural, em geral como micro-proprietários, trabalhando à base da mão-de-obra familiar (a foto abaixo mostra uma casa de camponeses na província do Alto Paraná, tirei durante uma pesquisa em 2007). No contexto de um Estado frágil e pouco presente, a Igreja continua a ser uma referência importante e uma influência política progressista fundamental, por vezes até contra sua vontade.



Explico: o Paraguai não foi alheio às mudanças conservadoras na Igreja latino-americana, à medida em que João Paulo II e Bento XVI afastaram expoentes da teologia da libertação e promoveram sacerdotes mais afinados às suas concepções. Nas regiões produtoras de soja que visitei, era muito comum que os principais auxílios financeiros para os padres locais viessem das empresas agrícolas e dos grandes comerciantes da área. Meus amigos comentaram que com freqüência o sacerdote, ao se instalar numa comunidade, ganha de presente uma caminhonete.

No entanto, a participação em grupos religiosos é um dos poucos instrumentos à disposição dos jovens interessados em conhecer um pouco mais além de seu próprio vilarejo. Através da Igreja eles viajam para cidades, fazem amigos, vivenciam novas realidades, eventualmente entram em contato com pessoas com experiência política. Mesmo dentro da mesma província paraguaia há discrepâncias grandes no padrão de cada comunidade camponesa. A maioria é muito pobre, mas algumas se desenolveram, outras fazem experimentos à base de agroecologia. Abaixo, a vila de Minga Porã (em português significa algo como “Mutirão Bonito”), formada por antigos sem-terra que ocuparam a área no fim da ditadura Stroessner. Fica a menos de uma hora de carro da casa mostrada acima.



Lugo era bispo de San Pedro, das dioceses mais pobres da América Latina, fora da área relativamente mais próspera do cultivo da soja e do algodão do Paraguai. A marca do convívio nessa zona difícil é visível em seus gestos e atos, como na maneira simples de se vestir, que o diplomata indiano Rengaraj Viswanathan chama de “revolução das sandálias” e compara ao simbolismo de Gandhi. Também é forte no uso de expressões na língua guarani e em seu vínculo com movimentos camponeses.

Os primeiros dias de governo de Lugo foram marcados por uma ofensiva anti-corrupção e pela defesa que o novo presidente faz de um estilo de vida austero, chegando mesmo a renunciar a seu salário. Isso me assusta um pouco: não gosto da ênfase da Igreja em rejeitar o conforto material. As pessoas querem uma vida melhor, querem dinheiro para comprar uma camisa bonita e levar a namorada ao cinema. Não vejo sentido em pregar um comportamento de santo eremita no deserto. Esse tipo de exigência moralista é tão inatingível que acaba levando inevitavelmente à frustração e à decepção, quando não ao cinismo.

Querelas teológicas à parte, Lugo tem grandes desafios: lidar com a maioria do Partido Colorado no Congresso, nos governos provinciais e no funcionalismo civil e militar, gerir sua própria coalizão, bastante heterogênea, negociar com Brasil e Argentina e dialogar com as enormes expectativas que sua presidência desperta.

No circuito dos movimentos sociais, há um desejo intenso de que Lugo seja bem-sucedido. Colegas que conheceram seus novos ministros ficaram muito bem impressionados com a alta qualificação técnica. Há inclusive a idéia de realizar eventos e reuniões em Assunção, para valorizar este momento tão importante na região.

3 comentários:

Luiz Antônio Gusmão disse...

eu não seria mto otimista qto ao governo do lugo, maurício: o fato de ter sido eleito com 41% dos votos e ter feito coalizão com os conservadores do oviedo podem prejudicar seriamente o desempenho d seu governo.

acho q ele passará por um duro dilema: por um lado, se tentar passar a agenda dos movimentos sociais q o apóiam, pode ter seu governo paralisado [estou supondo q o união nacional seja o partido do legislador mediano, com baixa coalescência].

por outro, se valorizar a estabilidade terá de suavizar mto suas posições ideológicas para acomodar os interesses e terá d enfrentar a impopularidade.

ele sabe disso. vejo a presença de tantos líderes regionais na sua posse é uma tentativa de reforçar sua legitimidade internacionalmente. além disso, adotar o combate à corrupção pode ser vista como uma estratégia para implantar políticas d baixo teor ideológico, q provoquem poucas divergências.

torço pelo bom-sucesso dele. a transição de governo só faz bem à democracia. vamos ver...

Patricio Iglesias disse...

A aliança do Lugo é talvez menos sólida do que a do De La Rúa. A menos duma semana da asunçäo já tivo problemas com o vicepresidente. Näo gostou de que no gabinete escolhera membros da oposiçäo interna a ele no Partido Liberal Auténtico e diz que näo va renunciar a seu salário por ter filhos. É bem lógico o que você diz sob os salários. O presidente näo é uma figura de mármol que vive numa torre de marfil. É como qualquer outro: vive, respira, manja... Até diria que isso é uma "sacralizaçäo" do presidente, em lugar de mostra-lo como um cidadäo mais.
Esperemos que tenha boa sorte, claro, mas com uma coalizäo assim va ter muitos problemas. Issas alianças do tipo "só coincidimos na oposiçäo ao oficialismo" traim muitos problemas (os argentinos o savemos bem!)
Saludos!

Mauricio Santoro disse...

Caro Luiz,

Dois amigos me disseram nesta semana, a propósito de outros assuntos, que ando excessivamente otimista sobre a vida. Talvez tenham razão :-)

Guardadas as proporções, o dilema de Lugo não é tão diverso daquele que Lula enfrentou em 2002, e acredito que ele seguirá os passos petistas (governo de coalizão, política macroeconômica conservadora, contrapartes sociais). Só que num quadro instituticional bem mais perverso do que o brasileiro...

Grande Patricio,

o espectro de De La Rúa e da Alianza de fato continua a rondar a América Latina... A vantagem paraguaia é que as condições econômicas atuais são mais favoráveis, não é a situação à beira do abismo da Argentina de 1998.

Abraços