
Nos últimos dias, mergulhei em duas obras de arte que refletem sobre a extrema pobreza nos Estados Unidos, na Depressão da década de 1930 e na crise atual. “Elogiemos os Homens Ilustres” é uma reportagem clássica sobre agricultores em dificuldades no Alabama. “O Solista”, adaptação para o cinema da história real da amizade entre um jornalista e um músico sem-teto em Los Angeles.
Em 1936 a revista Fortune encarregou o repórter James Agee de seguir para o sul dos EUA e passar algumas semanas com as famílias que cultivavam o algodão e enfrentavam com especial severidade os efeitos da crise econômica. Ele levou junto o fotógrafo Walker Evans, que documentou a jornada em excelentes imagens. A reportagem nunca foi publicada, mas serviu de base para um livro no qual Agee relatou a experiência, numa análise social que mergulhou bastante fundo naquela realidade.

Agee misturou o senso de justiça da geração do New Deal com a inventividade formal dos escritores modernistas que ele tanto admirava, seu livro se parece muito com a obra de James Joyce ou Alfred Doblin (“Berlim Alexanderplatz”). Em certo sentido, ele foi um precursor dos beats e do Novo Jornalismo da década de 1960, e não por acaso seu livro demorou muito a ser reconhecido, para depois virar objeto de culto pela vanguarda literária americana. Não é uma obra fácil ou agradável de ser lida, mas impressiona o retrato da miséria pintado por Agee, com um tipo de falta de esperança e escassez de oportunidades que em geral só esperamos encontrar em narrativas sobre países subdesenvolvidos.
O jornalista também estava à frente do seu tempo no que diz respeito ao combate ao racismo. É significativo que a Fortune o tenha mandado expressamente acompanhar o cotidiano dos trabalhadores brancos, embora o plantio e a colheita do algodão fosse tradicionalmente realizada por negros, ainda mais no Alabama! Ele ataca com rigor as discriminações enfrentadas pelos afro-americanos e os próprios historiadores atuais do New Deal são muito críticos com relação à relativa pouca atenção que Roosevelt dedicou ao grupo, em parte porque precisava do apoio dos hiper-conservadores Democratas do sul.
“O Solista” é ambientado 70 anos depois de “Elogiemos...”. O cenário é a conturbada e injusta megalópole de Los Angeles, na qual o jornalista Steve Lopez (interpretado por Robert Downey Jr.) escreve uma coluna sobre o cotidiano local. Um dia ele escuta um músico sem-teto executar com perfeição obras de Beethoven numa praça do centro. Interessado por sua história, descobre que ele se chama Nathaniel Ayers Junior (Jamie Foxx) e que foi aluno da prestigiada escola Julliard, da qual fugiu após um surto de esquizofrenia. Acossado pela doença, vive nas ruas, mas continua apaixonado pela música e com grande talento artístico.
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