quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O Engenheiro


A luz, o sol, o ar livre
envolvem o sonho do engenheiro
O engenheiro pensa, sonha coisas claras:
superfícies, tênis, um copo de água

O lápis, o esquadro, o papel;
o desenho, o projeto, o número;
o engenheiro pensa o mundo justo
mundo que nenhum véu encobre...


João Cabral de Mello Neto

“Eliezer Batista – o engenheiro do Brasil”, de Victor Lopes, é um belo documentário que conta a trajetória de um dos mais importantes pensadores da estratégia de desenvolvimento brasileiro do século XX, o homem que por duas vezes presidiu a Vale do Rio Doce, que foi fundamental para a construção dos portos de Tubarão e de Sepetiba, para a exploração da maior província mineral do planeta, Carajás, um pioneiro da internacionalização de empresas nacionais que revolucionou a logística da mineração e que por duas vezes foi ministro de Estado. Por meio da história de sua vida, é possível entender muitas das transformações pelas quais o país passou, e analisar os desafios dos próximos anos.

Eliezer nasceu numa pequena cidade de Minas Gerais e se formou em engenharia no Paraná. Foi trabalhar com os americanos que construíam a ferrovia Vitória-Minas e no cargo aprendeu o que eram então as técnicas mais sofisticadas de construção, que conviviam com um cenário de miséria rural – ainda hoje, décadas depois, Eliezer chora ao lembrar as condições de vida dos trabalhadores que comandava. Foi para a Alemanha cursar pós-graduação e lá se casou com Jutta, uma mulher extraordinária, lembrada com carinho pelos que a conheceram. Foi um matrimônio feliz que resultou em sete filhos, o mais famoso dos quais, o empresário Eike, é atualmente o homem mais rico do Brasil.

O jovem engenheiro fez carreira na Vale, então uma pequena mineradora que enfrentava problemas logísticos aparentamente insolúveis. Eliezer ascendeu na empresa até se tornar seu presidente e mudou a mineração mundial: apostando na demanda crescente do Japão por minérios, elaborou um sistema pelo qual navios gigantescos, com capacidade para 100 mil toneladas, saíam do Brasil e levavam a carga até a Àsia, voltando carregados com o petróleo do Oriente Médio. Para viabilizar a operação, construiu ferrovias e portos modernos. Pequeno detalhe: os maiores navios à época levavam 40 mil toneladas. Ele precisou convencer os estaleiros a apostar em tamanhos ampliados, para obter as economias de escala necessárias para competir com a Austrália, então a principal fornecedora do Japão.




O presidente João Goulart o nomeou ministro das Minas e Energia, e a ditadura militar instalad a em 1964 considerou Eliezer inimigo e comunista – pesavam suspeitas por sua preocupação social com os trabalhadores. Ele ficou dez anos afastado do serviço público, trabalhando para mineradoras privadas na Europa e nos EUA, mas acabou voltando à Vale para articular a conquista de novos mercados internacionais. O presidente João Figueiredo o reconduziu à presidência da empresa e o encarregou de desenvolver a província mineral de Carajás, construindo um complexo de minas, ferrovias e porto.

Collor o apontou ministro dos Assuntos Estratégicos, na reforma ministerial que tentou evitar o impeachment formando um gabinete de notáveis. Nos poucos meses em que ocupou o cargo, Eliezer lançou projetos importantes que se concretizaram em anos posteriores, como a integração da infraestrutura da América do Sul.

O filme de Victor Lopes tem, entre outros méritos, o de mostrar a extraordinária simpatia humana de Eliezer. Aos 85 anos, é lúcido, bem-humorado, exímio contador de histórias e continua muito ativo, pensando idéias para o desenvolvimento do estado do Rio de Janeiro, como consultor da Federação de Indústrias. Dele veio a inspiração para o pólo metal-metânico em Resende e Porto Real, e para o arco rodoviário que ligará o porto de Sepetiba ao aeroporto internacional do Galeão.

2 comentários:

Patricio Iglesias disse...

Meu caro:
É muito interessante ver a participação ativa dos engenheiros na história brasileira. Agora, o único caso similar que lembro é do Gral. Agustín Justo (1932-1938), que sendo engenheiro civil foi amigo da construção de rodovias.
Saludos!

Patricio Iglesias

Mauricio Santoro disse...

Meu caro,

este país já foi o paraíso dos engenheiros. Hoje há um déficit grande desses profissionais no Brasil, é até tema de uma ótima reportagem no jornal Valor Econômico desta quinta.

Abraços