segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Diplomacia Militar



Passei o fim de semana na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), dando um curso sobre política na América Latina, como parte de um convênio de pós-graduação entre a instituição e a Universidade Candido Mendes. É muito gratificante acompanhar, e participar, do fortalecimento do campo de relações internacionais no Exército. Algo que para mim começou de maneira mais intensa no ano passado, quando dei outro curso na AMAN, para os cadetes do último ano.

Um dos projetos que anda na minha cabeça é o de organizar um livro sobre diplomacia militar. A participação das Forças Armadas em missões de paz na ONU é um tema bastante estudado – na própria turma para a qual lecionei na AMAN havia oficiais que serviram no Haiti – mas há muitos outros desdobramentos internacionais da ação dos militares.

Um exemplo são os Pelotões Especiais de Fronteira na região amazônica. Um dos oficiais com os quais conversei me contou histórias fantásticas de quando comandou um desses destacamentos, como jovem tenente. É uma experiência desafiadora, porque o oficial, além de exercer funções militares em grande isolamento geográfico, precisa desempenhar atribuições de prefeito, juiz de paz, mediador de conflitos e diplomata.

As Forças Armadas também exercem funções clássicas de dissuação em negociações internacionais. O barão do Rio Branco era mestre em utilizá-las dessa forma, deslocando tropas por ocasião de diálogos delicados, como exemplo do que poderia acontecer caso a diplomacia fracassasse. Atualmente, na América do Sul, os temas da segurança energética e da proteção às comunidades de brasileiros no exterior (sobretudo no Paraguai e na Bolívia). Este último assunto, inclusive, tem sido objeto de diversas manobras de treinamento, em razão de crises políticas que envolveram tais grupos.

Outro tema que tem ganhado destaque é a revitalização da indústria de defesa, diante do aumento dos investimentos do governo no setor. Por enquanto as expectativas estão concentradas na Força Aérea, mas logo deve começar também uma expansão da Marinha, pela necessidade de proteger o pré-sal e pelo repasse de royalties do petróleo à instituição.

Tenho sido um defensor de que os currículos dos cursos de relações internacionais dediquem também mais espaço ao estudo da política doméstica de países que são importantes para o Brasil. A importância desse enfoque tem se tornado clara no caso de crises recentes com a Bolívia e a Venezuela, mas até mesmo no que diz respeito a Honduras, onde um conhecimento mais sólido da realidade local teria auxiliado bastante as autoridades brasileiras. Foi ótimo constatar que os militares compartilham minha preocupação.

3 comentários:

Mário Machado disse...

As forças especiais americanas tem um ramo que eles chamam de humam terrain (posso ter errado o nome especifico) que se ocupa de tentar desvendar as nuances políticas internas das regiões onde essas forças atuam e empregam profissionais de relações internacionais e outras sociais aplicadas nesse intento. Tática que pelo que vc diz e pelos cursos da AMAN que fazem intercambio entre bacharelandos em relações internacionais civis e os cadetes, também consta das alternativas das FFAA brasileiras.

O Brasil tem muito que evoluir na relação academia - FFAA, mas é bom saber que existe já uma boa relação.

E quem sabe assim vão se superando preconceitos antigos e se aumenta o controle civil das FFAA, que há quem chame de controle democrático.

Mauricio Santoro disse...

Salve, Mário.

Os americanos têm uma longa tradição em investir nessa relação, que remonta, pelo menos, à Segunda Guerra Mundial. Muitos de meus amigos acadêmicos que fizeram doutorado nos EUA conviveram com colegas de turma que são oficiais militares. Algumas das atuais estrelas do Exército americano, como o general Petraeus, são PhDs em Ciência Política ou Relações Internacionais.

Nosso estágio no Brasil ainda é mais modesto do que esse nível de integração, mas já melhorou bastante, e acho que a tendência é aprimorar-se ainda mais.

Abraços

Tathiany Bonavita disse...

Prezado professor,
Li o seu post e confesso que me identifiquei imensamente com a ideia de escrever um livro sobre Diplomacia Militar. Sou pós-graduanda em Segurança e Defesa e gostaria de conversar a respeito de uma possível parceria no desenvolvimento de material sobre o tema.
Você poderia entrar em contato comigo por favor?
Meu e-mail é tathiany@hotmail.com
Aguardo seu contato e agradeço pela atenção.
Cordialmente,
Tathiany Bonavita.