quarta-feira, 11 de julho de 2007

La Paz


A viagem para a Bolívia foi difícil. O vöo que deveria ter chegado às 21h de segunda-feira atrasou doze horas, o que significou entre outras coisas que minha equipe e eu praticamente näo dormimos. No dia seguinte estávamos cansados e fui o único que näo ficou doente por conta dos 3.600 metros de altitude em La Paz. Tive até que chamar um médico para atender uma das minha colegas e ele ficou espantado com minha disposiçäo, me perguntou o que eu tinha feito para permanecer com saúde: "Doutor, há tempos eu queria fazer essa viagem, estou täo feliz de estar na Bolívia que näo há atraso no mundo capaz de mudar isso."

Meu entusiasmo se explica pela extraordinária riqueza dos movimentos sociais bolivianos. É como se este pequeno país fosse um laboratório a céu aberto, onde se realizam diariamente experiëncias sobre os temas mais quentes da agenda política contemporänea na América do Sul. Lutas por recursos naturais, identidade étnica, contradiçöes entre nacionalismo e integraçäo regional, por aí vai.

Os primeiros dias por aqui foram dedicados a reuniöes e conversas com os colegas do Programa de Investigación Estratégica en Bolívia (PIEB), uma das mais importantes ONGs locais. Além de uma grande quantidade de pesquisas, essa instituiçäo criou um serviço de notícias e um mestrado muito interessante em ciëncias sociais, que treina os estudantes em projetos de cooperaçäo práticos. O PIEB também publica muitos livros - compramos duas coleçöes completas, uma sobre jovens bolivianos, outra sobre a cidade de El Alto. Levei um sobre o movimento cocalero. Conversei com o diretor da instituiçäo, com o reitor da universidade e com vários pesquisadores. Excelente equipe, aprendi muito com todos.

Estou hospedado no centro histórico de La Paz, a um quarteiräo da Plaza San Francisco e bem próximo à Plaza Murillo, na qual está o Palácio Presidencial, o Congresso e a Catedral (foto). Nesse curto espaço entre os dois locais, que näo tem um quilömetro, concentram-se as açöes dos movimentos sociais e dos protestos públicos - ontem mesmo houve dois, porque o país está num momento de turbulëncia política, por conta dos debates sobre a nova constituiçäo.

La Paz está localizada numa espécie de cavidade em plena cordilheira dos Andes, a cidade é cercada por montanhas, cujas encostas foram bastante favelizadas. O aspecto geral é de pobreza, mas há edifícios históricos muito bonitos, embora a zona colonial näo esteja täo bem preservada quanto a de Quito. Contudo, o pior problema dos paceños é a poluiçäo, muito forte por conta da falta de regulaçäo sobre os önibus e automóveis.

O centro da cidade é bastante movimentado, com uma multidäo multicolorida que circula entre milhares de barracas de ambulantes nas quais se vende de tudo. As roupas variam do paletó e gravata às vestimentas tradicionais dos povos originários, em particular dos aymara que säo mais numerosos nesta zona do país.

Amanhä passarei o dia em El Alto, epicentro dos movimentos sociais bolivianos. Depois conto como foi.

2 comentários:

Sergio Leo disse...

Pela descrição, você deve estar no Hotel Presidente, nesse centro de La Paz, hein, Santoro?
De fato, é interessantíssimo e pouco estudado aqui o movimento social boliviano. Mas tive uma péssima impressão do movimento sindical, que é muito ativo, e me pareceu usar técnicas do sindicalismo dos anos 50, com pressão sobre os empregados, convocação para passatas sob amaeaças de retaliação aos faltosos, grupos de capangas cercando os líderes e um jogo estranho de manipulação das massas, com favores, presentes, listas de chamada em passeatas...

Mauricio Santoro disse...

Salve, Sergio.

Na mosca, estive nele mesmo.

Na nossa pesquisa, o único sindicato que estamos analisando é o das trabalhadoras domésticas, no qual há um conflito entre as dirigentes mais velhas e as jovens - que são nosso tema.

Pelo que tenho visto, os sindicatos bolivianos perderam muita força na última década, o mercado informal de trabalho é gigantesco. Por isso os movimentos sociais mais fortes se organizam em outras bases e temas.

Abraços