domingo, 1 de julho de 2007

Cidade, Civilidade, Civilização



"O que aconteceu em Vila Cruzeiro foi uma chacina", nos dizia o deputado estadual Marcelo Freixo, em audiência pública na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. E prosseguiu nos contando as denúncias que ouviu dos moradores: a polícia fala em 19 mortos, todos traficantes abatidos em confronto. As pessoas que vivem no local afirmam que mais de 30 foram assassinados, incluindo adolescentes de 13 anos massacrados a facadas.

Há semanas que a tragédia se anunciava, com o cerco do complexo de favelas pela polícia, os tiroteios constantes e as atrocidades cometidas contra a população civil (creio que o termo, mais aplicado a conflitos militares, descreve bem o cenário carioca). Deve ser a centésima (milésima?) vez que isso acontece no Rio de Janeiro. Enquanto a Polícia Federal desmantela quadrilhas gigantescas sem disparar um tiro, a Polícia Militar insiste numa estratégia de confronto bélico de resultados pífios, que parece muito mais voltada para impressionar a platéia ("Vejam como a polícia está trabalhando!") do que para combater o crime.

Na audiência da Assembléia, muitas pessoas se emocionaram e algumas choraram. Já estou muito endurecido pelo Rio de Janeiro para me permitir esse luxo, mas ainda sinto raiva. Às vezes é tudo que podemos preservar.

O historiador Luiz Felipe Alencastro fez uma bela análise em seu blog sobre a foto que ilustra este post, comparando-a com uma imagem célebre de luta contra o apartheid:

"Claro que não há apartheid no Brasil, claro que o governo Lula e o governo de Sérgio Cabral, não tem nada em comum com o filo-nazista Vorster, primeiro-ministro sul-africano em 1976.

Mas as duas fotos transmitem o mesmo desespero de gente que tem muito em comum. Gente do Atlântico Negro, que vive em favelas, que tem seus direitos desrespeitados, que leva tiro da polícia sem saber porquê.

O menino da foto de Sam Nzima tinha 12 anos e se chamava Hector Pieterson. Hoje em Soweto há um memorial com o seu nome, homenageando as duas centenas de pessoas mortas em junho de 1976.

Como se chamava a criança da foto do Alemão? Que idade tinha? Será o menino de 13 anos, um dos três adolescentes incluídos nos 19 mortos da quarta-feira, coletivamente catalogados pela polícia e por uma parte da imprensa como “bandidos”? "


Cidade, civilidade e civilização têm a mesma raiz. Mestre Aristóteles dizia que a pólis havia sido criada para tornar a vida humana possível. A violência no Rio não é só o fracasso de uma determinada política de segurança pública, é também o testemunho da falência brasileira em construir uma sociedade baseada na desigualdade e na discriminação.

5 comentários:

Marcus disse...

Obviamente concordo com tudo o que você e o Luiz Felipe escreveram.

Quando começou essa operação de guerra, eu, não sei por que (sic), tinha certeza que ia sobrar feio para a população ao redor.

Enquanto isso, em Brasília, só se fala nas mesquinharias do Senado...

Patrick disse...

Quando se lê um livro como Elite da Tropa (a metade final, principalmente), a impressão que se tem é que o noticiário sobre a violência no Rio de Janeiro é um eterno déjà vu.

Mauricio Santoro disse...

Pois é, mas a coisa piora: o governador do Rio disse que a classe média precisa lidar com o "estresse" do combate ao crime nas favelas. Seria cômico, se não fosse trágico.

Patrick, amanhã vou pegar o "Elite da Tropa" emprestado com meu irmão. Estou com medo do que lerei nele.

Abraços

Éder disse...

Salve, Maurício. de qualquer forma os fatos são lamentáveis, porém onde estão os depoimentos de moradores que fundamentem as acusações de Freixo? normalmente as famílias se manifestam imediatamente. olha, "ELITE DA TROPA" é inimaginável... ABRAÇO!

Mauricio Santoro disse...

Olá, Éder.

O Freixo tem ido bastante ao Complexo do Alemão e é talvez o principal crítico das operações da polícia dentro da Assembléia Legislativa. No entanto, os moradores não atacaram a polícia publicamente.

Creio que a razão é óbvia. Se eu morasse em Vila Cruzeiro, não falaria mal nem da polícia, nem do tráfico. Tenho amor à vida.

Freixo também disse que a OAB solicitou ao governo estadual acesso aos cadáveres das pessoas mortas pela polícia.

A idéia era que médicos pudessem examiná-los, e analisar como foram mortos. A permissão foi negada, obviamente. Podemos especular sobre o que o governo estadual quer esconder, mas acredito que não são as provas da eficiência da polícia do Rio.

abraços