domingo, 8 de julho de 2007

O Congresso e a Venezuela



Chávez com freqüência troca insultos com parlamentos estrangeiros, na crise da RCTV atacou o poder legislativo do Chile, da União Européia e do Brasil – que chamou de “papagaio dos Estados Unidos”. O Congresso reagiu ameaçando rejeitar a entrada da Venezuela no Mercosul. Achei que fosse ficar nisso, mas para minha surpresa o discurso subiu de tom e criou-se uma turbulência política razoavelmente séria.

A Venezuela tem pouca indústria e câmbio sobrevalorizado, ou seja: importa de tudo. E muita coisa do Brasil, ao ponto que o mercado venezuelano já é o décimo maior destino dos produtos brasileiros, nos lembra mestre Sergio Leo. A economia local ainda tem muitas barreiras, como controle de importações, de modo que a liberalização comercial exigida para aderir ao Mercosul aumentaria bastante as possibilidades de negócios para o Brasil.

Além disso, a Venezuela é um país muito rico em fontes de energia, como petróleo, gás e hidroeletricidade. Oferece oportunidades para abastecer de forma barata o norte e o nordeste brasileiros, duas regiões que colheram poucos benefícios do processo de integração regional.

Esses são os pontos positivos. E os negativos? Diplomatas brasileiros se queixaram da velocidade com a qual a Venezuela negociou os termos de adesão. Eles acreditam que a rapidez indica pouco compromisso, e que num momento de dificuldades Chávez simplesmente não cumpriria o que acordou com os parceiros do bloco. De fato, ele fez algo semelhante em seus conflitos na Comunidade Andina de Nações.

Há quem afirme que a instabilidade política da Venezuela diminuiria a credibilidade do Mercosul, inclusive em negociações comerciais internacionais. Na medida em que o bloco não conseguir garantir o cumprimento de seus acordos, isso sem dúvida diminuiria a confiança que outros países depositam nele.

Por último, mas não menos importante: o Mercosul possui uma cláusula democrática, ou seja, a preservação das liberdades políticas em cada país do bloco é um assunto que diz respeito a todos os outros. O tipo de confronto que Chávez trava com seus opositores, nos partidos, na imprensa e na sociedade civil certamente trará as amargas polêmicas venezuelanas para dentro do processo de integração regional.

O chanceler Celso Amorim engrossou o discurso nos últimos dias e sugeriu que Chávez pedisse desculpas ao Congresso. O presidente venezuelano respondeu com novos ataques, dando ultimato ao parlamento brasileiro: quer a aprovação em três meses, senão desiste do Mercosul. Criticou o modelo de integração regional, chamando-o de "neoliberal". Faltou avisar aos neoliberais, que nunca morreram de amores pelo bloco e sempre preferiram uma zona de livre comércio, sem a alta tarifa externa comum, que servisse como primeiro passo para acordos semelhantes com os EUA e a Europa.

Ignoro como a crise irá se desenrolar, mas as empreiteiras brasileiras são muito ativas na Venezuela, por conta das bilionárias obras de infra-estrutura da “Revolução Bolivariana”. Ora, as empresas do setor não são propriamente pouco influentes junto a nossos parlamentares. Há limite ao número de amantes que o senador Renan Calheiros é capaz de engravidar (pela foto, vejam que não faltarão candidatas), mas as possibilidades são bem amplas no que diz respeito aos lucros para a construção civil na Venezuela.

Minha dúvida: será que Chávez quer mesmo entrar no Mercosul? Nesta altura do campeonato, tenho muitas dúvidas.

***

Embarco amanhã para a Bolívia, numa viagem de pesquisa sobre movimentos sociais na América do Sul. Fico até o fim da semana em La Paz, volto brevemente ao Brasil e parto de novo, para o Paraguai. A integração regional é complicada, mas é uma aventura fascinante.

4 comentários:

Rodrigo Cerqueira disse...

Maurício,

não tenho dúvida de que a entrada como membro pleno no Mercosul é mais uma aventura da política externa de Chávez. Estou com os diplomatas brasileiros quando dizem que muita pressa significa pouco compromisso. E o cumprimento de acordos não tem sido uma constante de nossos vizinhos ao norte. Esse semana Lula disse que "para sair do Mercosul, basta querer". Nos próximos meses, aproveitando esse prazo estabelecido por ele mesmo, Chávez pode dar o fora do bloco ao qual nunca pertenceu simplesmente para não dar a impressão de que foi rejeitado, o que ocorreria se o Congresso brasileiro votasse contra a entrada.

Por falar em Venezuela, será que você poderia me mandar o e-mail do Leonardo Valente? Ele hoje ganhou uma página inteira na Inter da Gazeta falando do Chávez e vai lançar um livro no mês que vem. Queria chamá-lo para fazer um lançamento aqui.

Grande abraço e divirta-se em La Paz. Na quinta eu embarco para Santiago. Aos vinhos, amigo!

Geraldo Zahran disse...

Na minha opinião o Brasil ganhou uma ótima oportunidade de se livrar do problema criado quando resolveram convidar a Venezuela para participar do Mercosul.

Melhor fingir de morto agora e deixar o Chávez ir embora sozinho.

Concordo que a integração com a Venezuela tem benefícios mútuos, mas tem que ser feita em outros termos. Se a adesão ocorrer nos termos atuais corre-se o risco de transformar o Mercosul em um grande palco para o Chávez.

Igor disse...

Até que eu entendo as oportunidades da entrada da Venezuela no Mercosul: maior densidade política do bloco, segurança energética e blá blá blá.

No entanto, acho que a hora de se arrepender da idéia é agora e deixar que ele saia sozinho. Já ficou mais do que claro que os arroubos ideológicos do Chávez não compensam e que tê-lo dentro do bloco, que já tem dificuldades suficientes, vai servir só para fragilizar o Mercosul, ao invés de fortalecê-lo. Caracas que costure um bloco econômico com Bolívia, Cuba e Irã...

Boa viagem, amigo! Na volta, já sabe, né? Sagrada Família...

Mauricio Santoro disse...

Salve, Rodrigo.

Náo acredito que haja risco sério do Congresso brasileiro rejeitar a entrada da Venezuela no Mercosul, devido aos interesses econömicos envolvidos. A questäo: será que Chávez quer entrar no bloco?

O email do nosso querido Leo é lvalente@oglobo.com.br. O livro dele é muito bom, organize o evento que os alunos iráo gostar!

No mais, aproveite a viagem ao Chile, belo país!

Grande Geraldo,

a esta altura do campeonato, acho que nenhum negociador brasileiro morre de amores pelo governo Chávez (para dizer o mínimo) mas ainda náo está claro para mim se o Brasil iria se resignar a uma eventual desistëncia venezuelana, ou se tentaria botar panos quentes na coisa.

Meu caro Igor,

outro dia vi uma entrevista do embaixador Botafogo Gonçalves na GloboNews onde ele dizia mais ou menos isso, afirmando que a Venezuela no Mercosul será uma boa idéia, mas só no dia em que Chávez deixar o poder.

Só náo se deixe enganar pela retórica chavista. Com todos os arroubos terceiro-mundistas, o maior parceiro econömico da Venezuela continua a ser os EUA, e os negócios das estatais venezuelanas nos Estados Unidos inclusive se ampliaram no governo Chávez.

Abraços