segunda-feira, 30 de julho de 2007

Bobby



A história de um país é feita de muitos pequenos pedaços. Dos atos e palavras dos grandes líderes políticos, mas também pelo modo como as pessoas escutam um jogo de baseball pelo rádio, como se relacionam com seus chefes e até pelo tipo de pesadelo que têm quando usam drogas. “Bobby”, escrito e dirigido por Emilio Esteves (mais famoso por seu trabalho como ator) é um estupendo panorama dos sonhos e tensões dos EUA em 1968, contado a partir de 20 personagens que circulam pelo Hotel Ambassador em Los Angeles, a sede da campanha à presidência do senador Robert Kennedy, no dia em que o político foi assassinado.

Esteves reuniu um elenco de primeira, que trabalhou por cachês simbólicos pela importância política do filme. Entre as feras da equipe está o pai do diretor, Martin Sheen, Helen Hunt, Sharon Stone, Demi Moore, Sir Anthony Hopkins, Laurence Fishburne, entre outros. Fiquei entusiamado para ver “Bobby” depois de ler uma bela resenha de Jamari França, na qual ele qualifica o filme de “manifesto a favor de uma América fraterna”.

O melhor personagem do filme é o cozinheiro interpretado por Laurence Fishburne, que aparece em apenas duas seqüências, mas de cenas e diálogos antológicos, enquanto serve de mediador para conflitos entre os empregados negros e mexicanos do hotel, e seus supervisores brancos. O retrato de um país à beira da explosão racial – Martin Luther King fora assassinado apenas dois meses antes dos eventos mostrado no filme, e sua morte foi o estopim para revoltas nos guetos das principais cidades dos EUA.

O outro grande trauma do período, a Guerra do Vietnã, atravessa várias histórias. Numa trama um tanto forçada, Lindsay Lohan interpreta uma moça que casará no papel com um colega de turma (Elijah Wood) para que ele se livre do serviço em combate e seja enviado para a Alemanha. É uma licensa poética do filme - essa brecha no regulamento do Exército fora eliminada vários anos antes. Em 1968 havia quase meio milhão de militares americanos no Vietnã, casados ou não. O trauma da guerra funciona muito melhor no caso de dois adolescentes que trabalham na campanha de Kennedy e resolvem experimentar LSD pela primeira vez, entrando numa viagem em que o medo do inferno bélico é a imagem mais forte.

O terremoto nas relações pessoais aparece nas histórias de um casal rico (Martin Sheen e Helen Hunt) deprimido diante do vazio de sua vida, e em busca de algo que eles não sabem bem o que seja para dar sentido a seu próprio relacionamento. O gerente do hotel também está envolvido em problemas conjugais, traindo a esposa com uma funcionária do Ambassador, o que acaba estourando um dos conflitos da trama.

O ano de 1968 também foi o da Primavera de Praga, e no filme há uma jornalista tcheca que tenta a todo custo uma entrevista com Kennedy, apenas para ser barrada por seu assessor, que considera inviável um encontro com uma repórter de um país comunista. Lembrete do clima ideológico maniqueísta da Guerra Fria

O próprio Robert Kennedy aparece em cenas de arquivos, documentários e reportagens de TV, com um ator representando-o de costas em algumas cenas. Seu assassinato fica como um símbolo de tantas esperanças que se frustraram naqueles anos, que culminaram na maior fragmentação do Partido Democratas, dividido entre quatro facções rivais, por conta da guerra e das tensões raciais. Ao fim, o republicano Richard Nixon ganhou a eleição presidencial. O resto é Watergate.

2 comentários:

Igor disse...

Bobby é um filmaço mesmo. Mostra que ainda há vida inteligente em Hollywood.

Tanto no viés dos diretores, quanto no dos atores, que aceitaram cachês bem mais baixos que os muito milhões a que estão acostumados, por acreditarem da importância da história a ser contada.

Ponto para eles.

Mauricio Santoro disse...

Salve, meu caro.

Um belo filme, para nos consolar de uma semana em que a grande jogadora de xadrez levou dois mestres para junto de si.

Abraços