segunda-feira, 16 de julho de 2007

Um Tal Evo


Um dos livros que comprei na Bolívia foi “Un Tal Evo”, biografia do presidente escrita por dois jovens e premiados jornalistas do país, Darwin Pinto e Roberto Navia. É um excelente trabalho que foge ao maniqueísmo para narrar a vida do chefe de Estado boliviano e explicar o contexto social que possibilitou sua meteórica ascensão.

Evo nasceu num povoado que sequer consta do mapa da Bolívia. Quando criança, seus pais migraram para a Argentina, para a província de Jujuy, na qual trabalharam algum tempo na colheita da cana. O menino vendia doces nas ruas. Voltaram à Bolívia para viver de uma pequena propriedade agrícola próxima a Oruro. Vida difícil, de pobreza e privações. Mas chama a atenção o caráter forte de Dionisio, pai de Evo, que foi escolhido como líder de sua comunidade indígena e conseguiu que seus três filhos chegassem à classe média. O irmão de Evo também é sindicalista e político, sua irmã é uma comerciante casada com um professor universitário.

O jovem Evo completou o ensino médio, algo incomum para a Bolívia da época, e tentou ofícios diversos: padeiro, músico e jogador de futebol. Ao voltar do serviço militar, a família migrou novamente, para a zona de expansão agrícola do Chapare, que vivia o boom da coca. Então a História entrou na história do rapaz.

A coca é amplamente consumida de forma legítima na Bolívia, como ficou claríssimo em minha visita ao país. Mas também é matéria-prima para o narcotráfico, cuja demanda consome entre 30% e 40% da produção, segundo as estimativas. Além disso a coca é um cultivo fácil, que pode render até quatro colheitas por ano. Tudo somado, é muito mais rentável do que outras culturas, como milho e palmito, que a partir da década de 80 tiveram que enfrentar condições internacionais adversas de abertura econômica.

Os EUA adotaram a política de erradicar os cultivos de coca – legais ou ilegais – na América Andina e o governo boliviano seguiu à risca a orientação. A região do Chapare virou um campo de batalha em que policiais e militares enfrentavam os camponeses que plantavam coca. Eles começaram a se mobilizar numa luta desesperada e aí Evo entrou no movimento. O jovem carismático chamou a atenção dos sindicatos por sua popularidade como músico e jogador de futebol, logo se revelou um líder político de expressão. Em dez anos tornou-se celebridade nacional e foi eleito deputado.

Ele poderia ter sido um político regional importante em Chapare, mas o que o tornou presidente foi sua capacidade de ser o porta-voz de uma série de demandas nacionais: a questão indígena, o controle dos recursos naturais, a defesa do modo de vida tradicional do Altiplano. Os cocaleros também demonstram capacidade invulgar de coordenação e negociação, articulando alianças com outros grupos políticos, que culminaram na fundação do partido Movimento ao Socialismo.

O livro comenta pouco sobre a presidência de Evo, fazendo críticas a ele na questão das autonomias, na qual os autores afirmam que o presidente leva em conta apenas os problemas da região andina. Há capítulos muito interessantes sobre as negociações com o Chile, por conta do mar, mas quase nada a respeito das relações com o Brasil, por conta do gás e da reforma agrária.

A organização dos capítulos é um pouco confusa, há muitos trechos repetidos e parece que o livro é uma colagem de textos escritos separadamente pelos dois autores, porque em vários momentos o narrador utiliza a primeira pessoa do singular (“Minha fonte no governo me disse tal coisa...”). Mas são problemas que não tiram o brilho da obra, sem dúvida muito boa. Que venham outras.

***


Amanhã caio novamente na estrada. Desta vez viajo ao Paraguai, para visitar movimentos indígenas na fronteira com o Brasil e conhecer comunidades rurais afetadas pela expansão da soja. Volto no fim da semana.

3 comentários:

Igor disse...

Aproveite as férias, meu querido, que o trabalho na volta será muito! Hahahahaha

Ramon Blanco disse...

Tudo bom Professor?
Muito bom viajar pela Bolívia por meio do seu blog.

Antes de chegar no Uruguai, duas perguntas sobre a Bolívia.

Com relação ao movimento separatista de Santa Cruz, dizem que existe um dedo dos EUA nisso, existe algum posicionamento brasileiro com relação a isso?
O Itamaraty tem por política dizer que não interfere em questões internas dos vizinhos sendo essas, questões de soberania do mesmo, mas qual é o comentário dos corredores? Você tem ouvido alguma coisa?

Outra pergunta é com relação ao futuro. Caso esse episódio vá a frente e a região ganhe autonomia, você acredita que o Brasil reconheceria a separação?

Um abraço,
Ramon

Mauricio Santoro disse...

Salve, Igor.

Nem me fale, há pilhas de trabalho me esperando...

Grande Ramon,

na verdade estou no Paraguai. E há dados interessantes para seu trabalho sobre biocombustiveis, porque as plantaçöes de cana estäo em expansáo na província que visito.

Sobre suas perguntas:

1- Náo existe um movimento separatista em Santa Cruz. O que há é uma mobilizaçäo por mais autonomia do departamento com relaçäo ao governo central. O movimento é forte na Bolívia, mas ao que me consta conta com simpatias fortes nos EUA e alguma ajuda financeira.

2- Interfere o tempo todo, como fazem todos os países com relaçäo aos Estados nos quais tëm interesses. No caso boliviano, a pressáo está muito forte para que o governo Morales náo desaproprie terras pertencentes a brasileiros. Aqui no Paraguai, o dificil é achar um tema político no qual o Brasil náo interfira...

3- Como disse no primeiro ponto, náo existe um movimento separatista em Santa Cruz e náo me parece que o Brasil ou qualquer país sul-americano apoiasse algo assim, pelo risco de provocar uma guerra civil numa nacao rica em gas natural.

Abracos