quarta-feira, 22 de agosto de 2007

A China na África


O New York Times começou a publicar um especial sobre a presença da China na África. Por enquanto há três reportagens disponíveis, todas elas muito interessantes, que abordam os aspectos políticos e econômicos desse relacionamento.

Basicamente, a China busca na África energia e minérios. As estatais chinesas exploram petróleo em diversos países do continente, em geral em regiões nas quais os ocidentais achavam que o custo era muito alto, ou em áreas sujeitas à instabilidade e guerra civil. Estão por toda a parte: Angola, Chade, Nigéria e, sobretudo, Sudão - é o segundo maior fornecedor internacional da China, atrás apenas do Irã.

Os chineses em geral oferecem um pacote: obras de infra-estrutura e armas em troca do petróleo e dos minérios. A escala da contrução civil chinesa na África impressiona pela abrangência e inclui estradas, aeroportos, represas e até a nova capital da Costa do Marfim. No que toca à indústria bélica, a China já é um dos líderes mundiais do setor. E evidentemente não faz perguntas sobre direitos humanos. Isso tem levado a situações trágicas, como o genocídio em Darfur, no Sudão - executado em larga medida com equipamento e apoio chinês.

Todos esses pontos já eram bem cobertos pelas análises especializadas. O que as reportagens do NY Times trazem de novidade é que quase um milhão de chineses migraram para a África. São pessoas comuns, sem conexões governamentais, que estão causando um grande impacto em diversos países. Montam fábricas e pequenos negócios, ou dedicam-se ao comércio.

A presença chinesa é vista de maneiras diversas pelos africanos. Há aqueles que saúdam os investimentos e empregos criados pelo país, outro que rejeitam o que vêem como novo colonialismo. Existem até queixas de que os migrantes chineses roubam empregos. O que mais me interessa é o debate promovido por Dani Rodrik, professor de economia política internacional em Harvard: Por que os empreendedores chineses triunfam onde outros, inclusive os africanos, fracassam? A discussão em seu blog está muito boa, com críticas pertinentes feitas por africanos.

4 comentários:

Patrick disse...

Quando o presidente chinês fez um giro pela África uns 4 ou 5 meses atrás, eu li uma reportagem no Herald Tribune muito curiosa. Havia diversas referências a imperialismo e colonialismo. De fato, se substituíssimos do texto China por EUA e o nome de seu dirigente por Bush, a matéria poderia sair tranquilamente na Caros Amigos.

Patrick disse...

Agora, realmente, se a China não faz perguntas sobre direitos humanos (o que a imprensa americana e o Departamento de Estado normalmente enfatizam), ela também não faz outras exigências incômodas, como privatização de serviços públicos, elevação de tarifas públicas e impostos, cortes de gastos sociais, ... ou seja, o pacote básico do FMI/Banco Mundial.

Patrick disse...

Perdão pelo erro crasso no primeiro comentário (o correto é "substituíssemos" ao invés de "substituíssimos")

Mauricio Santoro disse...

Olá, Patrick.

Sim, os dois pontos que você comentou aparecem bastante nas reportagens do NY Times e nos debates de Rodrik: por um lado o ressentimento com os termos desiguais das trocas entre China e África, por outro a percepção de que o governo chinês exige muito menos, tanto em termos de reformas econômicas quanto na defesa (ainda que retóricas) de princípios de direitos humanos.

Abraços