quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Os Jovens e a Integração da América do Sul



Uma das perguntas que iniciaram nossa pesquisa sobre a juventude sul-americana é se a integração do continente era uma questão relevante para essa faixa etária, ou se seria simplesmente uma preocupação da nossa equipe, algo “de fora” que estaríamos impondo a ele. Ontem passei o dia reunido com os colegas de projeto e me perguntaram como eu avaliava esse tema, à luz do que vi no trabalho de campo por Bolívia, Paraguai, Uruguai e da minha própria experiência do tempo em que vivi na Argentina.

“Sim, a integração sul-americana é uma questão importante para os jovens, mas não da maneira pela qual habitualmente pensamos nesse assunto. Não se trata de afirmar que eles estão preocupados com o Mercosul, ou acompanhando as negociações de comércio exterior. Essas são discussões abstratas, distantes do dia a dia da juventude. A integração entra em sua vida pelos aspectos cotidianos, como a cultura e o impacto das migrações.”

O papo extrapolou a reunião e prosseguiu no almoço. Todos comentaram o sentimento de isolamento da cultura brasileira com relação aos vizinhos, algo que não se percebe de maneira tão forte entre os hermanos.

De fato, em qualquer livraria de Buenos Aires eu encontrava os melhores autores do continente. Mas chamei a atenção para o fortalecimento dos laços culturais entre os jovens da América do Sul, inclusive os brasileiros. Fiquei muito impressionado com a riqueza das articulações do hip hop e o modo como seus integrantes o pensam como um movimento internacional, que extrapola nossa região e alcança EUA, Europa, África. Um amigo querido, Fernando Paiva – jornalista, escritor e músico – toca outra bela iniciativa, “Si no puedo bailar, no es mi revolución”, que reune bandas independentes de todo o continente.

A produção do cinema e da literatura também circula muito mais hoje em dia, veja-se um projeto simpaticíssimo como os “encontros de poetas jovens na América Latina”, narrado no site Cronópios, que só pelo título já evoca mestre Julio Cortázar, um dos ídolos deste blog.

E há, evidentemente, o enorme impacto das migrações. Meu trabalho de campo tem me levado a questionar as estimativas oficiais. Me parece que o número de pessoas que cruzam as fronteiras para trabalhar é muito maior do que se pensa. Todos os jovens com quem conversei nas três viagens têm amigos ou parentes no exterior e muitos deles já passaram pela experiência da imigração, ou pensam em fazê-la. Notícias, dinheiros, sonhos, frustrações: tudo circula junto com essa maré humana.

Por fim, há um tema caro às minhas amigas uruguaias, o cotidiano nas regiões de fronteira. Elas afirmam (a meu ver com muita razão) que é nesses locais que se vivencia a integração, uma espécie de globalização por baixo, com freqüência bastante diferente daquela que aparece na inflada retórica das chancelarias.

Infelizmente, a agenda de pesquisa acadêmica usual ainda está muito presa ao mundo oficial, essa abstração palaciana tão distante da realidade das populações. Por isso, ando entediado com os programas dos seminários universitários brasileiros. Sempre os mesmos professores, falando sobre os mesmos temas. O que mais tem me interessado é o cruzamento das questões sociais com as relações internacionais. Acredito que dessa encruzilhada partem muitos caminhos férteis.

3 comentários:

Carla Rosa Soares disse...

Maurício,
meu trabalho para o "Simulador da Onu" aqui da minha universidade é falar sobre a Argentina na OEA, sendo que o tema é "integração energética".

Acompanho o blog já faz um bom tempo, e lembrei que você trabalha muito com/na argentina.
Teria como, se possível, claro, você me ajudar a construir a posição e o conteúdo da Argentina em relação a esse tema, indicando sites, artigos, referências para pesquisar?

Caso positivo, entre em contato comigo por email crosasoares@yahoo.com.br, pois assim posso pegar seu email e, se puder, discuto o trabalho com você.

Desde já agradeço.
Att.
Carla Rosa

Mauricio Santoro disse...

Olá, Carla.

Por coincidência você tem o mesmo nome e sobrenome de uma colega de doutorado muito querida.

Muito legal o tema que você precisa abordar. Sugiro que você acesse o site da revista "Foreign Affairs en Español", no qual há um artigo sobre integração energética da América Latina que especifica a posição de cada país:

http://www.foreignaffairs-esp.org/

Abraços

Carla Rosa Soares disse...

Muito obrigado Maurício.
Já estou no site para começar a batalha e tentar representar bem os hermanos.
E quanto à semelhança no nome: um dia eu chego no doutorado! hehehe
abraço