sexta-feira, 3 de agosto de 2007

O Desafio do Brasil no Haiti


Soube com tristeza da morte do soldado brasileiro no Haiti, em um acidente envolvendo fios de alta tensão. É a segunda baixa do país na missão de paz (Minustah) - o general que a comandava se matou em 2005. Curiosamente, nenhum brasileiro morreu em combate - fato notável, porque as tropas brasileiras foram submetidas a intensos ataques, em particular durante o longo combate pela ocupação de Cité Soleil, a maior favela haitiana.

O Brasil participa de diversas missões de paz desde a década de 1950, mas até o Haiti os maiores contingentes haviam ido para os países africanos de lingua portuguesa. Na Minustah, são mais de mil soldados, e as tropas brasileiras assumiram o comando de uma ambiciosa operação multinacional. Que razões levaram o Brasil a tal responsabilidade?

1- O desejo de assumir um lugar permanente do Conselho de Segurança da ONU.

2- A vontade de fortalecer o sistema das Nações Unidas num momento (2004) em que ele estava bastante enfraquecido por conta da guerra no Iraque e dos ataques contra o QG da ONU em Bagdá.

Os diplomatas e militares brasileiros também gostam de afirmar que a participação do Brasil nesse tipo de operação tem características peculiares, como colocar em destaque temas ligados ao desenvolvimento e às preocupações sociais, além de relações mais próximas com a população. De fato, o Exército tem feito um trabalho muito interessante com o futebol nas favelas haitianas, utilizando o jogo para criar laços de confiança entre as tropas e os moradores.

Contudo, a Minustah nunca foi isenta de controvérsias. Muitos críticos apontaram que ela, no fundo, dava respaldo a um golpe que derrubara o presidente Jean-Bertrand Aristide. A conduta das tropas da ONU também foi muito criticada e surgiram várias denúncias sobre violações de direitos humanos e abuso sexual - acusações que infelizmente se repetem de maneira constante nas outras operações desse tipo.

Além disso, houve interferência muito forte nas eleições haitianas, com os países mais importantes envolvidos na missão - inclusive o Brasil - intervindo para eleger René Preval presidente do Haiti.

Com essas resalvas, a Minustah tem conseguido bom desempenho no que toca à reconstrução da segurança do país - e as Forças Armadas brasileiras aplicaram algumas dessas lições em operações militares no Rio de Janeiro, como ocupações de favelas. Não é algo que me agrade. A situção brasileira é muito complexa e não é, ou não deveria, ser tratada como um caso de guerra.

O ponto que mais me interessa foi analisado com brilhantismo pela minha querida orientadora na Argentina. Mestra Monica examina a Minustah como um laboratório para a cooperação política e militar entre os países da América do Sul, que compõem a maioria das tropas no Haiti. Ela ressalta sobretudo a integração Argentina-Brasil-Chile, um velho sonho do Barão do Rio Branco, que tem avançado de maneira bastante significativa naquela ilha caribenha.

E que ninguém pense que o Brasil irá parar no Haiti. Afinal, há aquela outra ilha caribenha que eventualmente pode precisar de uma missão de paz, para o caso de uma transição política conturbada...

Para o bem e para o mal, o Brasil entrou numa nova fase de responsabilidades e ambições na política internacional. Oxalá nosso governo e sociedade tenham a maturidade necessária para as novas tarefas.

4 comentários:

Patrick disse...

Boa análise. Para o contraditório, deixo como sugestão o livro "Um soldado brasileiro no Haiti"

Mauricio Santoro disse...

Olá, Patrick.

Andei folheando esse livro e me pareceu bem interessante. Outra boa obra sobre o tema é "A República Negra", livro de reportagens sobre o Haiti do jornalista Luis Kawaguti.

Abraços

Rodrigo Cerqueira disse...

Maurício,
entendo que você desaprove, como eu também, a presença de forças militares nas favelas do Rio. Mas não entendo por que essa presença seria tão distinta do que se faz em Cité Soleil. Não conheço a realidade haitiana para dizer que a questão é mais ou menos complexa que nas favelas cariocas, mas simples não é.
Desde o início da Minustah, me preocupam as eventuais aproximações feitas entre o trabalho lá e aqui. Sucesso no Haiti poderia alimentar o argumento de que as forças armadas deveriam fazer também o "dever de casa". Li o artigo da Monica e gostei muito. Porém, é sempre um risco que nosso protagonismo internacional reviva os argumentos de que estamos dando muita importância ao plano externo sem resolver antes nossos problemas internos. Tento mostrar aos meus alunos que as duas dimensões estão relacionadas e não se anulam como esse raciocínio faz parecer, mas reconheço que, muitas vezes, o esforço é vão porque a visão que aproxima ação externa e desperdício é muito forte num país com tantas dificuldades internas.
Grande abraço.

Mauricio Santoro disse...

Salve, Rodrigo.

Nas discussões que tenho acompanhado entre os militares, notei dois grupos principais. Um que acredita que a experiência haitiana pode ser transposta para o Rio de forma rápida - por exemplo, o tenente-coronel que ocupou a Mangueira na última operação do Exército havia comandado um batalhão na Minustah.

A outra corrente avalia que o Haiti é uma situação à parte, um país com um Estado falido e que o caso brasileiro é muito diferente, pois aqui há instituições mais sólidas, uma sociedade atuante etc. Um desses oficiais me disse que envolver os militares em ocupações de favelas é "cortejar a besta" pelos riscos de violações de DH que irá trazer.

Evidentemente que estou mais próximo da segunda corrente. Inclusive pelo peso da nossa história recente - não é bom dar às Forças Armadas o uso de violência contra civis em uma situação tão tensa quanto à segurança no Rio.

Abraços