sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Na Praia


A literatura do escritor britânico Ian McEwan é uma descoberta recente para mim. Só li um livro seu, o ótimo “Sábado”, no ano passado. Gostei ainda mais de “Na Praia”, pequeno romance sobre um casal cuja inexperiência sexual e dificuldade de comunicação afloram em sua noite de núpcias, em 1962.

A data é chave para entender o drama de Edward e Florence. Eles estão às portas da Revolução Sexual dos anos 60, mas não têm como saber disso e ainda pautam seu comportamento por padrões repressivos que não diferem muito da Era Vitoriana. Evidentemente havia muita gente se divertindo em qualquer época, mas os dois jovens têm histórias familiares difíceis e problemas sérios em se relacionar afetivamente com outras pessoas. Florence encontra consolo no Quarteto de Cordas no qual desponta como uma promissora artista, Edward vive as alegrias da descoberta de um mundo mais amplo, ao trocar o vilarejo rural onde cresceu pela universidade numa Londres que começa a ferver.

A narrativa da trama é primorosa, tanto pela maneira como McEwan entra nos sentimentos de cada personagem como no modo pelo qual retrata a época. Assim, os clubes de blues que Edward freqüenta são o contraponto ao Mozart que Florence tanto adora e um prelúdio ao rock and roll que conquistará o mundo e o próprio protagonista. As conversas com o pai da moça, um empresário conservador, dão o tom de uma sociedade que enfrenta a duras penas a perda do Império colonial e a busca de um lugar ao sol numa Europa que se integra rapidamente.

Mas o melhor é que o narrador conta a história a partir do ponto de vista deste início de século XXI, o que o permite comentários irônicos sobre as crenças dos personagens. McEwan nos mostra como o tempo dissolveu aquelas certezas morais que traziam tantos sofrimentos aos protagonistas do romance, e como o que parecia eterno era muitas vezes tão fugaz como uma noite de amor mal-vivido numa praia britânica.

A maior parte do romance se passa em 1961 e 1962, na medida em que o autor conta em flashback como o casal conheceu e se apaixonou, além de dar pinceladas sobre sua infância e adolescência. Contudo, nas últimas páginas o livro dá um salto que atravessa décadas para contar o que Edward fez de si mesmo após a noite fatídica. O truque é antigo – Flaubert e Eça o utilizaram no século XIX na Educação Sentimental e n´Os Maias. Mas McEwan dá um show. Poucas vezes vi tantos sentimentos condensados em tão pouco espaço, alegria, tristeza, esperanças frustradas e liberdades conquistadas, com o sabor agridoce da “vida que poderia ter sido e não foi”, como no verso de Manuel Bandeira. Escrita de mestre.

2 comentários:

Igor disse...

Esta é uma boa indicação para caçar na Bienal. Digo na Bienal, porque sei que lá não vou conseguir conter esse meu lado reprimido que anseia por livros de ficção!! Hahahaha

Mauricio Santoro disse...

Puxa, nem me fale... Estou com uma lista enorme para a Bienal, até porque tenho a expectativa de conseguir bons descontos por lá, a maioria dos livros que quero comprar custa mais de R$50.

Abraços