segunda-feira, 1 de outubro de 2007

As Viúvas das Quintas-Feiras



Começa a melhorar a vida dos brasileiros que se interessam pela literatura latino-americana. Com a entrada em nosso país da editora espanhola Alfaguara, uma das maiores difusoras internacionais dessa produção, temos à disposição excelentes lançamentos de todo o continente. O mais recente exemplar da riquíssima tradição da Argentina é o romance “As Viúvas das Quintas-Feiras”, da jornalista Claudia Piñeiro (foto). É uma história premiada sobre o cotidiano da elite que optou por se encastelar atrás dos muros dos condomínios fechados (que lá, como em outros países hispano-americanos, são chamados de countries). O pano de fundo é a ascensão e queda do Menemismo, culminando na grande crise de 2001.

Claudia Piñeiro começa seu romance com a morte misteriosa de três moradores do country Altos de la Cascada, perto de Buenos Aires, que são encontrados mortos na piscina da casa de um deles, depois do tradicional encontro que tinham toda quinta-feira à noite, para beber, conversar e jogar enquanto suas mulheres iam ao cinema ou ao shopping. A tragédia é o ponto de partida para uma sucessão de flaskbacks dos vizinhos, que reconstituem a história daquela pequena comunidade – bastante representativa, aliás, de certa elite latino-americana.



Os condomínios fechados viraram moda na Argentina nos anos 90 e foram escolhidos como lar por muitos dos novos ricos do Menemismo. Em geral estão localizados nas proximidades de grandes cidades como Buenos Aires e Córdoba (e não dentro delas, como ocorre no Rio de Janeiro). Os personagens do romance acompanham a onda de prosperidade daqueles anos, seja pelos que ganharam dinheiro honestamente, como executivos de empresas ou empresários, seja por aqueles que se envolveram nas inúmeras falcatruas e escândalos de corrupção que caracterizaram a época.

Uns e outros apostaram num estilo de vida de consumo ostentatório, imitando o padrão de vida dos subúrbios residenciais dos EUA (por exemplo, enormes caminhonetes esportivas, férias em Miami) seja pela adoção dos hábitos mais antigos da elite tradicional argentina (golfe, colégio britânico para os filhos).

O retrato que Claudia Piñeiro faz de seus personagens é o de uma crítica social dura, mas não desumana. Muitos são fúteis e desonestos, outros – sobretudo as mulheres – são bastante infelizes, presos a uma fachada de riqueza que com freqüência não corresponde exatamente à realidade. O abismo vai aumentando à medida que a crise que se inicia nos anos 90 vai piorando e muitos dos personages ficam desempregados, mas não aceitam a queda no padrão de consumo. Alguns, pela primeira vez na vida, num nítido contraste com a Argentina do pleno emprego e da ascensão social que existiu ao longo da maior parte do século XX.

Muito desse panorama poderia ser ambientado no Brasil, mas o livro lança um olhar bastante atento para o que há de peculiar na elite argentina, como a presença cada vez maior de empregados domésticos de outros países sul-americanos (Paraguai, Peru) e o racismo e a discriminação a que são submetidos. O anti-semitismo, problema nunca de todo solucionado na Argentina, também aparece no romance.

A esperança da trama é representada por um casal de adolescentes rebeldes e desajustados, Juani e Ramona, que com sua inadaptação ao ambiente ajudam a mostrar o que está errado por lá. Ao fim da história, terão um papel decisivo no mistério das mortes da piscina, que de um certo modo simboliza as mobilizações sociais recentes na Argentina, questionando a corrupção e a hipocrisia que dominam as práticas políticas do país. E não só lá, evidentemente.

5 comentários:

Igor T. disse...

Este eu comprei na Bienal, Mau! Ainda não li, mas já está aqui pertinho, esperando na fila.

Comprei 4 ficções na Bienal. Estou lendo em doses homeopáticas que é para relaxar antes de dormir. Mas se você contar isso para qq um, eu nego até o fim!! Hahahaha

Abração

Mauricio Santoro disse...

Bom, muito bom. Depois você me conta quais os livros que comprou. Agora estou lendo uma série de pequenas análises sobre as revoluções na América Central (Nicarágua, Guatemala, El Salvador). Bem interessantes.

Abraços

Patricio Iglesias disse...

Qué interessante seu artigo. Näo savia nada do livro.
O primeiro que pensei sob os crimes foi nos ultramediáticos crimes dos countries. Em Pilar (norte dos alrededores de BsAs) María Marta García Belsunce (2002)morreu "misteriosamente" na sua casa e a investigaçäo demorou muito, evidentemente pelos contatos dos familiares, que aparentemente foram os responsáveis. No último ano também tivemos outro crime similar num country, contra Nora Dalmasso, mas foi em Río Cuarto (Córdoba). Nos meses que há declaraçöes sob as causas, sem exagerar, os médios falam tanto disso como de política.
A propósito, o juicio de G. Belsunce se desenvolve nos tribunáis de San Isidro, que sempre aparecem na TV (às vezes mais do que a Casa Rosada, hehe)lembra?
Saludos

Paulo Gontijo disse...

Tem vampiros ou lobisomens nesse livro?
=)

Mauricio Santoro disse...

Salve, Patricio.

Acompanhei o caso da Nora Dalmasso quando morava na Argentina e pensei muito nele enquanto lia o romance. O da Belsunce conheço por alto, apenas de ler aqui e ali a respeito dele. Acho que existe em seu país uma fascinação/repulsa pelo mundo dos countries mais fortes do que a que existe no Brasil, onde raramente se fala desse universo.

Dom Paulo,

infelizmente, o romance da Claudia Piñeiro não toca nos temas elevados a que estou acostumado. Aliás, preciso baixar aquele podcast que comentamos por email!

Abraços