terça-feira, 16 de outubro de 2007

O Nobel de Al Gore



O Nobel da Paz concedido a Al Gore e ao Painel Internacional sobre Mudança Climática (IPCC) me interessa mais pela transformação na maneira de se pensar os temas de segurança do que pelo impacto à carreira do político americano.

Durante muito tempo, a segurança internacional foi analisada academicamente pelo prisma do poder militar. O que ameaçava um Estado era a capacidade de um exército inimigo derrotar suas tropas no campo de batalha. O Comitê do Nobel dava o prêmio da paz a quem evitava/encerrava guerras (Teddy Roosevelt, Woodrow Wilson, Carlos Lamas, Ralph Bunche) ou a instituições internacionais que desenvolviam trabalho na área de ajuda humanitária em conflitos (Cruz Vermelha, Anistia Internacional, ACNUR, Missões de Paz da ONU, Médicos sem Fronteiras).

O enfoque começou a mudar no ano 2006, quando o Nobel da Paz foi concedido ao criador do programa de microcrédito em Bangladesh, o economista Muhammad Yunus. O Comitê descobriu o que a reflexão acadêmica afirmava há mais de uma década: a paz é multidimensional e tem componentes relacionados ao bem-estar econômico, à conservação do meio ambiente e até ao modo como a identidade cultural é cultivada em cada comunidade. Na Teoria de Relações Internacionais, a maior contribuição para esse prisma múltiplo veio da Escola de Copenhague, em especial dos excelentes livros de Barry Buzan.

Os riscos à segurança internacional trazidos pela mudança do clima são enormes, porque tais transformações podem levar a migrações, desastres agrícolas e conflitos por recursos naturais escassos. Problemas como esses estiveram entre os estopins das crises em Darfur e Ruanda, e também estão presentes nos confrontos no Haiti.

O IPCC reune cerca de 3 mil cientistas é o fórum mundial mais importante para o debate sobre o tema. Al Gore tornou-se o porta-voz mais eficiente da necessidade de ação política quanto ao tema, mesmo que algumas de suas conclusões sejam incorretas ou apocalípticas. O Nobel vem no momento em que o governo dos EUA assumiu posições obscurantistas de negação do problema, que envolvem até perseguições a cientistas que trabalham para instituições federais.



Há muita especulação sobre se o Nobel concedido a Al Gore o levaria a disputar novamente a presidência dos Estados Unidos. A melhor análise que li a respeito foi editorial do Financial Times, que afirma que Gore realizou o sonho americano da “volta por cima”, inventando um novo papel para si mesmo depois de não ter levado a Casa Branca em 2000.

Acrescento que a admiração que conquistou na campanha de alerta sobre o aquecimento global desapareceriam no contexto de uma disputa presidencial que precisa tratar de vários temas. As pessoas querem que os candidatos se manifestem sobre seguro saúde, aborto, casamento gay, guerra no Iraque. Temas que dividem e polarizam. Se Gore ficar de fora da contenda, poderá desempenhar uma função muito mais influente como especialista em questões ambientais e conselheiro do futuro mandatário.

Além do mais, o sujeito ganhou o Oscar de documentário e o Nobel da Paz no mesmo ano. Chega, né?

2 comentários:

Igor T. disse...

O interessante foi que com um só prêmio a Fundação Nobel deu dois tapas na cara dos republicanos: primeiro ao elegerem um democrata que ganhou as eleições no voto e perdeu no colégio eleitoral; segundo elegendo um painel da ONU, organização insistentemente desconsiderada pelo presidente Bush, tanto nas questões de segurança, quanto nas ambientais. Questões que, agora, se tornaram uma só.

ps: adorei o post do filme do miterrand. Comentei e espero uma resposta a este comentário, devidamente enviada pro meu email! Hahahahahaha

Mauricio Santoro disse...

Ah, com certeza. E na verdade, continua uma tradição, porque desde que Bush tomou posse o Nobel premiou Kofi Annan e Jimmy Carter, líderes internacionais em conflito com George W. É sempre interessante o enfoque político do Comitê.

Abraços