sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Doutor Jegue e os Biocombustíveis


A idéia deste post veio de uma descoberta do meu amigo Alexandre Freitas - economista, conspirador emérito, cinéfilo. Alexandre revelou que o verdadeiro pai do programa brasileiro de biocombustíveis é o doutor Jegue, o protagonista do filme "O Incrível Monstro Trapalhão". Nesse épico injustamente esquecido, o dr. Jegue, interpretado por Renato Aragão, inventa um combustível revolucionário a partir da rapadura e o utiliza para construir uma equipe nacional de Fórmula 1, em parceria com Dedé, Mussum e Zacarias, mecânicos que tocam o projeto com competência digna da TAM e da GOL.

O quarteto enfrenta a cobiça estrangeira, com direito até a conflitos geopolíticos com o mundo árabe. Quero dizer, é o quadro ideológico do nacionalismo dos anos 70, do desenvolvimento por substituição de importações etc. Hoje em dia eles seriam acusados pelo Reinaldo Azevedo de afugentar o investimento externo e difundir o anti-americanismo, Ali Kamel bradaria em defesa das nossas crianças, submetidas à doutrinação de livros didáticos comunistas e à pregação anti-capitalista de Didi Mocó e a Veja faria edição especial sobre a farsa dos Trapalhões, com direito a artigo do Diogo Mainardi dizendo que a culpa é do cinema brasileiro. A base governista no Congresso talvez se identificasse com as trapalhadas do quarteto, no entanto o mais provável é que disputassem a marca em plenário, tão logo o Renan libere o parlamento.

Pensei muito no dr. Jegue nos últimos dias, ao ler o discurso do presidente Lula à Assembléia Geral da ONU. Segundo nosso primeiro mandatário, os biocombustíveis preservam o meio ambiente, combatem o aquecimento global, equilibram a balança comercial e geram desenvolvimento sustentável. Não sei se também curam resfriado e dão mais disposição física, ou se isso é exclusivo do biotônio Fontoura, aliás centro de inolvidável campanha publicitária estrelada pelo mesmo Renato Aragão. O Brasil é o país da piada pronta, natural que os humoristas estejam no centro da agenda pública.

Por coincidência, nesta semana saiu o novo número da revista do IBASE, a Democracia Viva, cuja edição atual é dedicada aos biocombustíveis e ao meio ambiente. Há vários artigos muito bons na publicação, meu favorito é "Bioenergia e inclusão social na agenda política", do economista René de Carvalho, professor da UFRJ. A política do governo é estimular a inserção da agricultura familiar na cadeia produtiva dos biocombustíveis, principalmente a partir do plantio de oleaginosas - mamona, girassol, dendê. As empresas que compram essa produção ganham benefícios fiscais.

O problema é a dificuldade da agricultura familiar em competir com as economias de escala e com a mecanização do agronegócio, que prefere utilizar a soja e a cana como matéria-prima para biocombustíveis. Também há preocupação com a demanda por terras para plantar cana e o impacto sobre a alta do preço dos alimentos. Embora nada tão trágico quanto o desastroso programa dos EUA, baseado no milho.

E agora, quem poderá nos socorrer? Sou mais o dr. Jegue. Ou talvez ouvir intelectuais da direita esclarecida, como Hebe Camargo e Ivete Sangalo.

3 comentários:

Paulo Gontijo disse...

Maurício, seriam a Hebe e a Ivete a Fafá de Belém e a Paloma Duarte da direita?

Igor T. disse...

Lula, Didi Mocó, Hebe Carmago, Fafá de Belém, Ivete Sangalo, Paloma Duarte...só faltou Regina Duarte e Stepan Nercessian!

É realmente de se perguntar: e agora, quem poderá nos defender? Chamem o Chapolim Colorado! Ou então, como pediu o esclarecidíssimo Luciano Huck, Capitão Nascimento neles!!

Mauricio Santoro disse...

Salve, Paulo.

Não, eu realmente acredito que Hebe e Ivete são o melhor que a direita pode oferecer atualmente, em termos intelectuais. Para encontrar os equivalentes na esquerda, nos campos da TV e da música, teria que recorrer a Caco Barcellos e Chico Buarque.

Igor,

amanhã, se tudo correr bem, vou ver o Tropa de Elite. Caveira!

Abraços