domingo, 28 de outubro de 2007

O peronismo visto do Brasil


Anedota argentina: visitante estrangeiro pergunta a Perón como o país se divide politicamente. Ele lhe responde com as porcentagens de cada corrente, como socialistas, liberais, conservadores, comunistas. “E os peronistas, meu general?”, “Ora, peronistas somos todos!”

De fato, quando entrevistei altos funcionários do governo Menem para minha tese, me impressionou o quanto a etiqueta de “peronista” se colava a pessoas que em outros países seriam tranqüilamente classificadas sob um amplo leque de categorias políticas. Tenho até uma amiga cordobesa, antiperonista convicta, que votará neste domingo em... Cristina Kirchner. A vida tem dessas coisas.

O peronismo sempre teve má imagem na imprensa brasileira, porque o movimento surgiu e se consolidou no momento (1943-1945) em que estava no auge a mobilização democrática pelo fim da ditadura Vargas. Mas a cobertura desta eleição presidencial foi marcada por hostilidade recorde ao casal Kirchner, me senti na década de 1950. Um apresentador da Globo (de onde mais?) chegou a pregar que a Argentina mostraria os riscos de uma “República Sindicalista”. Tive que pegar o galho de arruda que reservo para essas ocasiões e orar diante da TV: “Carlos Lacerda, sai desse corpo, ele não te pertence!”.

Há muito o que criticar nos Kirchner: autoritarismo, corrupção em seu circulo íntimo, manipulação da inflação, instransigência na politica externa. Ainda assim, tais defeitos são comuns a muitos outros políticos latino-americanos – digamos, aos presidentes da Colômbia, do Peru e do México – que não recebem o mesmo tratamento agressivo. Por que tanto ódio no coração?

O governo Kirchner violou dois tabus da política brasileira: renegociou a dívida externa e quebrou a impunidade dos crimes cometidos pela ditadura militar. Ambas as medidas deram certo e lhe renderam popularidade. Tanto ativismo incomoda ao governo e à oposição no Brasil. Claro que o contexto aqui é diferente, mas o exemplo argentino pode fazer as pessoas pensarem um pouco sobre os limites do possível.

A imprensa brasileira tem dito que o peronismo “nunca esteve tão dividido”. Bobagem. Qualquer um que conheça o mínimo de história argentina sabe que esse momento foi nos anos 1970, quando a extrema-direita (Triple A) e a extrema-esquerda (Montoneros) do peronismo travaram verdadeira guerra civil, com tragédias nacionais como o massacre de Ezeiza.



Ademais, o peronismo sempre foi fragmentado. É exemplo típico do catch-all party do que fala a ciência política. A expressão é de difícil tradução – FHC usava “partido ônibus”, em seus tempos de sociólogo, mas isso foi antes de ele próprio subir no coletivo... Em todo caso, o conceito define uma coalizão heterogênea, sem ideologia precisa, que apela a pessoas de várias classes sociais – ainda que o peronismo tenha um forte componente de identidade com os trabalhadores argentinos, bem mais do que governantes semelhantes como Vargas no Brasil ou Haya de la Torre no Peru.

Para onde vai o ônibus, sob a condução de Cristina?

4 comentários:

Rodrigo Cerqueira disse...

È verdade, Maurício. Mais uma vez percebemos o quanto nossa imprensa cobre mal os assuntos do continente. A crítica já se tornou repetitiva, mas há poucos sinais de que alguma coisa possa mudar.
Publiquei também um comentário sobre as eleições no meu novo blog e nele cito esse seu. Depois dá uma olhada lá:

www.assembleiageral.blogspot.com

Aproveita e inclui um link meu aí na lateral, se puder.
Grande abraço

Mauricio Santoro disse...

Salve, meu caro.

Você bem o sabe, por conta da sua dissertação. Outro dia eu conversava com meu orientador sobre a importância de termos mais pesquisas sobre mídia e relações internacionais, na linha do que você e o Leo têm feito.

Vou checar o novo blog e colocá-lo nos favoritos. O antigo morreu?

Abraços

Igor T. disse...

A imprensa brasileira ainda precisa evoluir muito para cobrir com conteúdo acontecimentos externos.

Infelizmente, tenho a impressão de que, no fim de tudo, a imprensa ou usa os óculos da direita ou as lentes da esquerda, e os relatos acabam sempre neste cenário preto e branco....

Mauricio Santoro disse...

Salve, Igor.

Sem dúvida. A América Latina polariza em termos de esquerda/direita, mas a cobertura da União Européia, onde não há essas tensões, é igualmente ruim. A imprensa dedica mais espaço ao divórcio do Sarkozy do que a projetos como o da associação com os países mediterrâneos.

Abraços