segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Brasileiros no Paraguai



“Gostaria de esclarecer que sou brasileiro, mas não planto soja”, disse aos camponeses paraguaios. Eles riram. Eu tinha acompanhado uma oficina de jovens trabalhadores rurais na cidade de Hernandarias, e os organizadores me pediram para palestrar no fim do evento. Falei sobre as tensões que ocorrem na região entre as empresas do agronegócio e os pequenos agricultores – brasileiros e paraguaios. Conflitos envolvendo capangas, intimidação para venda de terras, contaminação da água devido ao uso intensivo de agrotóxicos.... A conversa foi boa e depois alguns rapazes vieram falar comigo se desculpando por declarações que equiparavam brasileiros a sojeiros, e me contando que tinham muitos amigos nascidos aqui, jogavam futebol juntos etc.

A América do Sul é bastante urbanizada, mas o Paraguai é exceção. Cerca de 40% de sua população vive na zona rural. A maioria dessas pessoas é de camponeses sem-terra, ou proprietários de minifúndios, que tocaram grandes movimentos sociais, como as Ligas Agrárias que enfrentaram a ditadura Stroessner (vejam o belo vídeo abaixo) e a onda de ocupações que ocorreu em meio ao colapso do regime autoritário. As tensões se concentram na região leste do país, fronteira com o Brasil, onde se localizam as áreas mais dinâmicas da agricultura comercial de exportação, da soja e do algodão.




Entre 300/500 mil brasileiros vivem no Paraguai. A migração começou na década de 1970, composta sobretudo agricultores familiares do sul do Brasil, oriundos de pequenas propriedades que não conseguiam sustentar muitas pessoas. Receberam incentivos da ditadura Stroessner, compraram terras baratas e prosperaram como fazendeiros, comerciantes e até políticos, no nível municipal. A segunda onda migratória acompanhou a expansão do agronegócio. São gerentes, técnicos e especialistas que se instalaram para administrar as operações das multinacionais no local - e às vezes entra em conflito com a primeira. É uma comunidade heterogênea e com relações bastante variadas com os paraguaios.

O presidente Lugo trabalhou vários anos com os sem-terra, como padre. Mas o governante tem arco de alianças que inclui vários partidos de direita e a oposição conservadora dos colorados tem maioria no Congresso e nos governos provinciais. Os camponeses sabem que suas demandas por reforma agrária correm sério risco de fracassar e pressionam fortemente Lugo. Nos últimos dias, cercaram fazendas, sobretudo aquelas pertencente a estrangeiros. Invadiram algumas, em outras ocasiões foram detidos pela polícia.



Os conflitos entre brasileiros e paraguaios misturam economia, controle dos recursos naturais, meio ambiente, xenofobia e racismo. Pesa a história de violência entre os dois países. No Brasil, quase não se fala da Guerra do Paraguai ou do apoio do país à ditadura Stroessner (que atravessou do democrático JK até o regime militar) mas na nação vizinha os dois temas geram ressentimento e frustração. Os paraguaios têm forte sentimento nacionalista, amparado no idioma e cultura guarani. Difícil conciliar esse orgulho com uma situação que a muitos parece humilhante, de ver a parte mais rica da economia sob controle do povo estrangeiro que os derrotou militarmente. E que às vezes demonstram sensibilidade cultural ímpar... Vejam por exemplo o brasileiro Tranquilo Favero, o maior plantador de soja do Paraguai: “Sou criticado publicamente por não falar guarani, mesmo estando aqui há 40 anos. Falo para os meus netos: aprendam língua de povo desenvolvido.“

Impossível prever os desdobramentos. O cenário no Paraguai reflete de modo mais intenso e conflituoso o que tem ocorrido também em outros países, como Bolívia, Equador e Uruguai. Como conciliar o projeto de integração com as assimetrias de poder entre o Brasil e os vizinhos?

Foto: Ponte da Amizade, entre Brasil e Paraguai.

7 comentários:

Pedro Jansen disse...

Olá, Mauricio!

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Cordialmente,

Anônimo disse...

Olá,

vc tem um post de agosto/2007 que fala sobre uma revista que tem na capa bolivianos em sao paulo....vc ainda tem essa revista?
nao acho em lugar nenhum,e estou fazendo um tarbalho de faculdade...seria interessante dar uma olhada...
desculpe e obrigada

ariadne

ariadne_romano@yahoo.com.br

Mauricio Santoro disse...

Caro Pedro,

Já respondi a você por email.

Oi, Ariadne.

Tenho quase certeza que ainda tenho a revista. Me passe um email para msantoro@ibase.br e lhe envio o exemplar, não irei mais precisar dele.

Abraços

Lilian disse...

Dica de leitura...Textos ácidos e sarcásticos, pra quem quer ficar por dentro dos assuntos políticos e dos últimos acontecimentos de forma leve.


www.mosaicodelama.blogspot.com

Boa leitura!

Mauricio Santoro disse...

Impressão minha ou a caixa de comentários deste blog virou o Mural da Mãe Joana?

Tudo bem, gosto de bagunça. Daqui a pouco alguém pendura um aviso de "trago a pessoa amada em três dias".

Paulo disse...

Olá,

Parece complicada a situação do Paraguai para os brasileiros (ou brasiguaios).

Meu medo é que o discurso nacionalista acabe redundando em conflitos maiores que prejudiquem o próprio Paraguai e machuquem brasileiros que, até onde sei, em sua maioria compraram terras legalmente e trabalharam duro para torná-las produtivas.

O nacionalismo e a agressividade podem servir para um presidente que não poderá cumprir promessas disfarce sua incapacidade (pessoal ou conjuntural).

Mas, aproveitando, vendo um fusca 1966 em ótimo estado.
;)

Mauricio Santoro disse...

Salve, Paulo.

Meu medo também é esse. Nos dois países há uma longa tradição em usar o nacionalismo para afastar a atenção da população dos problemas internos.

Mmmm... o seu Fusca tem quantos quilômetros rodados? :-)

Abraços