quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Modernizando a FAB


Ontem recebi de um amigo a análise da Stratfor, a célebre consultoria especializada em temas militares, sobre a política brasileira de reequipar a Força Aérea. A empresa coloca a decisão como um dos três grandes fatos da última semana que indicam os rumos da política internacional da próxima década – os dois outros seriam a ratificação do acordo nuclear Índia e Estados Unidos, e a cúpula Alemanha e Rússia, que tenta reforçar a parceria energética entre os dois países e acalmar a União Européia, sobretudo os Estados do Leste, com relação às intenções de Moscou.

A Stratfor examina a geopolítica sul-americana e contrasta a situação do Brasil com os problemas dos vizinhos:

By any measure, Brazil is a rapidly rising power, and this has nothing to do with the fact that it has discovered an obscene amount of oil in its offshore regions in the past year. Brazil's traditional competitors - Argentina and Venezuela - are in the process of mismanaged economic collapse, leaving Brazil with no competitors in its neighborhood.

Dizer que a Venezuela é “rival tradicional” do Brasil é uma brincadeira, historicamente o vizinho do Norte olhou para o Caribe e a América Central, regiões de pouco interesse para a política externa brasileira. O caso argentino, evidentemente, é outro, marcado pelas longas disputas no Cone Sul. Mas o enfrentamento virou aliança a partir dos Acordos de Iguaçu, em 1985, e desde então as relações entre Buenos Aires e Brasília se tornaram bastante sólidas, ainda que temperadas aqui e ali por alguma controvérsia comercial a respeito de geladeiras ou tarifas. Ainda assim, me parece que a Stratfor acertou o nervo: a comparação entre um Brasil que cresce internacionalmente e uma região onde a instabilidade política e econômica continua a travar o desenvolvimento.

Em seguida, a consultoria examina a decisão da Força Aérea Brasileira de comprar 36 caças, a custo de cerca de US$3 bilhões. A FAB já é maior da região – a segunda, a colombiana, é forte em helicópteros mas tem poucos aviões de combate. A folga não é tão grande com relação a alguns tipos de aeronaves, como caças, que Peru, Chile e Venezuela possuem em boa quantidade, e em modelos mais avançados como Mirage 2000, F-16 e Mig-29. As iminentes aquisições por parte do Brasil reverterão o quadro, com o país assumindo a superioridade também nessa área.

O governo brasileiro anunciou três empresas finalistas para a compra dos caças: o francês Rafale (foto), o americano F-18 e o sueco Gripen. O objetivo da FAB não é apenas adquirir os aviões, mas obter transferência de tecnologia. È considerado praticamente certo que a França vencerá a concorrência, em função dos acordos estratégicos que assinou com o Brasil, e que estabelecem cooperação militar nos campos aeronáutico e naval.

Contudo, a lista da FAB apresenta uma exclusão interessante. Ficaram de fora os Sukhoi-35 russos, muito bem avaliados pelos especialistas. Ora, como todos sabem, Estados Unidos e Rússia estão em rota de colisão, inclusive na América Latina, pela proximidade entre os governos em Caracas e Moscou. Sanções americanas contra Chávez impedem a boa manutenção de sua frota de F-16 dos EUA, de modo que ele se voltou para os aviões russos.

A Stratfor analisa bem o significado da opção brasileira:

More notable than what designs made Brazil's final cut is the design that failed to: Russia's Sukhoi Su-35. Brazil is emerging on the world stage. The decisions it makes now will shape its policy - and thus that of the rest of the world - for decades to come. Brazil deliberately chose to go with a Western system for its airpower. Of the potential options, the Sukhoi was the only system that would have given Brazil the option of challenging U.S. military primacy (...) Put simply, rising Brazil has either made a conscious decision to pursue a modernization program that will put it at American mercy or made a conscious decision not to adopt a hostile attitude toward the United States.

De fato. Tudo indica que o Brasil ficará com a aliança francesa, que lhe permitirá autonomia tecnológica que os americanos nunca se mostraram dispostos a conceder. Ao mesmo tempo, evita-se o confronto com os Estados Unidos, excluindo da concorrência seus rivais russos.

Aguardemos o anúncio do Plano Nacional de Defesa, que deve trazer outras novidades bastantes bem interessantes, em particular sobre a expansão da Marinha.

11 comentários:

Anônimo disse...

Maurício, Morgenthau me enviou uma mensagem psicografada dizendo: "Ahh...até que enfim ele escreveu sobre High Politics...hehe"

Só lamento a lentidão e o fracasso do programa FX-1 que, no fim, resultou na compra de Mirages 2000 "de prateleira" como diz o Ministro Jobin. A opção russa, seguida pela Venezuela por ex. é de alto risco, pois a aviônica e o sistema de armas é comprovadamente inferior, vide as estatísticas de dogfighting reais. O F-16 norte-americano é o campeão e os israelenses detém modelos ainda mais modernos.

Sobre o Zakaria: O cara, junto com os demais realistas neoclássicos (Schweller, Walt e Wolforth)deram nova vida ao realismo político desde o fim da Guerra Fria ao incluir variáveis domésticas.
e de quebra resgataram Morgenthau para deixar de lado a idéia sacrosanta do estruturalismo de Waltz! Leio com muita alegria todos eles e não sinto falta nenhuma dos devaneios do IRI-PUC. (superarei o trauma!)

abraços jogador,

Helvécio.

Magu disse...

Maurício, Morgenthau me enviou uma mensagem psicografada dizendo: "Ahh...até que enfim ele escreveu sobre High Politics...hehe"

Só lamento a lentidão e o fracasso do programa FX-1 que, no fim, resultou na compra de Mirages 2000 "de prateleira" como diz o Ministro Jobin. (aqui é uma pequena correção ao seu texto, pois o Brasil já possui caças desse modelo) A opção russa, seguida pela Venezuela por ex. é de alto risco, pois a aviônica e o sistema de armas é comprovadamente inferior, vide as estatísticas de dogfighting reais. O F-16 norte-americano é o campeão e os israelenses detém modelos ainda mais modernos.

Sobre o Zakaria: O cara, junto com os demais realistas neoclássicos (Schweller, Walt e Wolforth)deram nova vida ao realismo político desde o fim da Guerra Fria ao incluir variáveis domésticas.
e de quebra resgataram Morgenthau para deixar de lado a idéia sacrosanta do estruturalismo de Waltz! Leio com muita alegria todos eles e não sinto falta nenhuma dos devaneios do IRI-PUC. (superarei o trauma!)

abraços jogador,

Helvécio.

só uma correção ao seu texto: o Brasil já possui Mirages 2000.

Patricio Iglesias disse...

Caro Maurício:
Já conhece minhas opinöes pacifistas, mas é interessante analizar cómo o Brasil estrutura uma autonomia frente aos EUA sem confrontaçäo direita.
Odeio cada vez que no exterior fazem declaraçöes alocadas, como dizer que a Venezuela é um rival histórico do Brasil e da Argentina. Mas concordo totalmente com que a atual liderança brasileira näo é pelo ouro preto (nem pelo Belo Horizonte, com perdäo dos mineiros pela brincadeira hehehehe).
Saludos da Argentina!

Patricio Iglesias

Mauricio Santoro disse...

Caro Helvécio,

mais cedo ou mais tarde, a gente sempre tem que discutir compra de armamentos... C´est la vie. Ou pelo menos, as RIs.

O Rafale tem sido elogiado pelo desempenho no Afeganistão, e a idéia de uma parceria tecnológica com a França, em larga escala, é bem interessante. Quanto aos russos, concordo contigo, o risco existe e não é pequeno.

Tenho gostado muito do que leio do Zakaria, e também de alguns outros novos realistas, como o Robert Kagan, cujo livro mais recente (The Return of History and the End of Dreams) também vai pela linha do mundo pós-americano, mas com uma mirada mais pessimista.

Salve, Patricio.

Também não me agrada muito a idéia de bilhões de dólares em armamentos, mas a possibilidade de transferência de tecnologia para uso civil (por exemplo, na Embraer) é muito boa para o Brasil. O mesmo deve ocorrer com relação à Marinha e a ìndústria naval.

Abraços

Hugo Albuquerque disse...

É a velha e nem tão boa lógica brasileira. Só se moderniza uma estrutura de defesa construindo uma indústria própria.

Não adianta importar material bélico de nenhuma potência. Isso só é válido caso se conceba apenas a possibilidade de uma guerra contra algum vizinho, pobre e enfarruscado, o que não é real: Os únicos possíveis interessados em e capazes de invadir o Brasil em um futuro próximo seriam os EUA ou as potências da Europa ocidental. Isso não é um juízo de valor político, é uma constatação da realidade estratégica mundial.

Claro, é mais fácil seguir esse caminho repetindo coisas do tipo de "transferência de tecnologia" como se fosse um mantra para dourar a pílula. No entanto, do ponto de vista estratégico, é pura balela. Os argentinos tinham armamento francês na Guerra das Malvinas e viram o que aconteceu; na hora H, europeus e americanos se ajudam mutuamente, passam todos os códigos de bandeja e dane-se o país sulamericano em questão.

A chance disso acontecer com armamento russo, por conta da geopolítica, é bem menor, ainda assim, seria um risco.

Você pega e vê a China desenvolvendo uma indústria aeroespacial decente, com foguetes próprios e tudo mais, enquanto isso estamos a mandar turistas em naves russas para o espaço com dinheiro público.

Fora isso, ainda tem uma questão fundamental que ninguém anda prestando atenção: Estrategicamente, as Forças Armadas brasileiras estão ainda na Guerra Fria; e o pior tudo é que estão lá com o papel que lhes foi delegado à época, combater em favor do interesse americano algum "inimigo interno". Calma, fica pior, eles ainda estão nessa época, agindo conforme esses interesses e o fazendo como se fossem membros de um partido político.

Pegue a questão da reserva indígena Raposa Serra do Sol e tente explicar para alguém que aqueles militares são capazes de defender o Brasil. Não são. Eles são profundamente obtusos, não enxergam um palmo a frente do nariz.

A democracia brasileira não conseguiu reformar as suas FA's. Depois da ditadura, a sociedade brasileira se deparou com a constatação de que a sua relação com quem deveria defender-lhe era insustentável, mas não procurou nada que caminhasse para um reforma, simplesmente foi colocada um pedra em cima e tapou-se os ouvidos.

O fato é que estamos profundamente desprotegidos e insistindo na política errada; dizem que o primeiro sinal da loucura é insistir em um método que não dá certo claramente, se isso for verdade, somos uma nação esquizofrênica.

Mauricio Santoro disse...

Caro Hugo,

Os projetos assinados com a França são bastante interessantes e incluem um grau de cooperação avançado para a indústria de defesa brasileira, tanto no caso do submarino nuclear quanto na proposta do Rafale, que beneficiaria a Embraer, principal parceira da FAB no projeto.

A doutrina das FAs brasileira mudou muito, e lhe digo isso com tranqüilidade porque colaborei em vários seminários e simpósios discutindo com os militares temas sul-americanos e seus impactos para o Brasil.

Embora a Constituição coloque as FAs com a responsabilidade de garantir a ordem interna, caso convocadas pelos poderes constitucionais, há muitas resistências entre os militares em ver as FAs transformadas em polícia. Diria que a corrente primordial é atuar em ocasiões especiais, e por períodos curtos de tempo.

Acho, no entanto, que as FAs poderiam se aproximar mais da sociedade civil, a exemplo do que vem ocorrendo no Chile. Mais participação da opinião pública nos Planos de Defesa seria um ótimo passo.

Abraços

Hugo Albuquerque disse...

Maurício,

Agradeço a atenção na resposta, no entanto, não consegue sair da minha cabeça o que houve nas Malvinas com os Exocet.

Por mais que o Brasil tenha ótimas relações com a França, países não têm amigos, mas sim interesses. Numa situação limite--que não pode nem deve ser desconsiderada--, como reagiriam os franceses?

Não sou nenhum especialista em relações internacionais, mas se é pra comprar armamentos de alguém, que sejam russos, afinal de contas, se a OTAN for totalmente confiável é simples, acaba-se com o exército para gastar a grana com educação e saúde e permite-se que americanos, franceses e quem quiser mais construam bases no nosso território.

Já os russos não, é altamente improvável que eles se lancem em uma aventura para os lados de cá, portanto, é menos inseguro comprar armamentos deles.

Claro, reforço, que o correto mesmo é desenvolver tecnologia própria.

Quanto às FA's, gostaria de compartilhar da mesma crença que você, no entanto, o que eu tenho visto é um pouco diferente; as declarações de militares sobre a questão da defesa são um pouco bizarras, vejo poucos deles se preocupando com a IV Frota e com a Colômbia e muitos se preocupando com a Venezuela e a Bolívia.

Se estivessem se preocupando com todos seria razoável, mas se for pra escolher, acho que os dois primeiros representam uma ameaça um pouco maior.

No demais, mais do que reaproximação com a sociedade civil, ainda creio que falta muito para as FA's se reinserirem no plano institucional--não de faz-de-conta, de verdade mesmo--, basta ver as subsequentes quedas de ministros da defesa.

Mauricio Santoro disse...

Salve, Hugo.

A França é um parceiro muito tradicional das FAs brasileiras, em particular do Exército e da Aeronáutica. E sua posição de política externa - aliada aos EUA, mas sempre buscando autonomia - casa bem com a própria perspectiva brasileira.

Além disso, os acordos são com a França, e não com a OTAN. Paris e Bruxelas inclsive tem uma história algo conflituosa, embora tenham se aproximado nos últimos anos, sobretudo por causa da guerra no Afeganistão.

Sobre a Defesa: atualmente a principal "hipótese de emprego" (para usar o jargão) das FAs brasileiras é o combate a uma intervenção estrangeira (leia-se, EUA) na Amazônia.

A questão é que os Estados Unidos estão com as mãos atadas por causa dos conflitos no Oriente Médio e na Ásia Central, ao passo que a turbulência política nos Andes e no Paraguai é mais imediata e tem preocupado mais os militares brasileiros, às vezes com certo exagero, como no caso das diatribes de Chávez.

Abraços

Hugo Albuquerque disse...

Mauricio,

Prosseguindo o diálogo, sim, eu entendi que foi um acordo com a França e não com a OTAN.

No entanto, o mesmo aconteceu com franceses e argentinos no passado e isso não impediu Paris de optar na Guerra das Malvinas pelo país membro da OTAN envolvido no combate.

A idéia política do tratado Brasil-França também está bem clara: Não optar por nenhuma grande potência militar buscando um meio-termo que não seja anti-ocidental. O problema é que se a hipótese de emprego do armamento se concretizar, não imagino Paris tomando uma atitude que não seja pró-americana.

Nunca um armamento de um país membro da OTAN vai ser usado contra outro, especialmente se esse "outro" for suficientemente poderoso, como são os EUA ou o Reino Unido.

Usar tal tipo de armamento faria sentido se o perigo fossem os russos ou os chineses, mas não são eles.

Se as FA's levam em conta ser crível um ocupação americana na Amazônia e fazem a compra deste material bélico, estão tomando uma atitude esquizofrênica.

Quanto aos EUA estarem de mãos atadas, isso é real até o médio prazo, ainda assim, mesmo na situação em que se encontram atualmente, eles reativaram a quarta frota.

Ademais, o foco em termos de vizinhança deve ser a Colômbia, seja por conta das muitas bases americanas em seu teritório, seja pelas suas recentes atitudes em transgredir as leis internacionais com a violação da fronteira equatoriana.

Abraços;

Mauricio Santoro disse...

Caro Hugo,

Naturalmente, um conflito entre o Brasil e um membro da OTAN significaria a interrupção da ajuda militar francesa. Mas em qualquer choque entre os brasileiros e uma grande potência, esta aplicaria sanções ao país, fosse qual fosse o aliado.

Para voltar às Malvinas, naquela época a ditadura argentina estava aos mil amores com a URSS, a quem vendia montanhas de trigo rompendo o embargo pós-invasão do Afeganistão – e nem assim os soviéticos ousaram cutucar a onça com vara curta. Não forneceram nem um parafuso a seus aliados comerciais.

Como diriam os teóricos do realismo, a segurança internacional é o mundo do self-help. Em bom português: cada um por si.

Nas palestras que dei ao Exército ressaltei que – em minha análise – os maiores riscos à segurança do Brasil na América do Sul viriam de conflitos envolvendo posse e exploração de recursos naturais na região andina (incluindo, claro, Colômbia) que poderiam extrapolar para o território brasileiro ou envolver a mediação diplomática para a resolução da crise.

Nesse sentido, o principal papel do poder militar seria o de dissuadir ataques aos interesses do país e servir de apoio à negociação pacífica.

Parece que o Plano de Defesa sai na próxima segunda. Aguardemos!

Abraços

Hugo Albuquerque disse...

Maurício,

Os argentinos negociavam com os soviéticos, assim como compravam armas dos franceses e na hora H, eles lhe faltaram.

Claro, os soviéticos nem que quisessem poderiam fazer muita coisa diferente na época, até por conta de todos os tratados da Guerra Fria.

Ademais, para Moscou foi interessante ver países da área de influência americana em combate, o que obrigaria--como obrigou-- Washington a tomar uma decisão que preterisse um de seus aliados.

Quanto a questão da política externa, claro, como acentuei inicialmente em dos meus comentários, países tem interesses não amigos, e muitas vezes a visão de como realizar esses interesses é incrivelmente tacanha e autista.

Você tem razão, aguardemos. No entanto, eu ainda espero ver um dia uma reforma suficientemente profunda na nosssa política de defesa.

Abraços e valeu pelo papo.