sexta-feira, 17 de outubro de 2008

A Crise Financeira e a América Latina



A ONG em que trabalho publicou um especial sobre a crise financeira, no qual contribuo com um pequeno artigo sobre os impactos das turbulências globais neste continente. Reproduzo o texto abaixo:

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A crise financeira que se originou no mercado de empréstimos imobiliários dos Estados Unidos se espalhou rapidamente para muitos dos principais bancos e corretoras daquele país e das nações da Europa. À medida que aumentam as tensões nas bolsas de valores e nas operações de câmbio, cresce a expectativa sobre as conseqüências para a América Latina. Para tentar responder à questão, é preciso analisar as diferentes maneiras pelas quais os membros da região se inserem na economia global. Os países mais vulneráveis são aqueles que dependem primordialmente dos Estados Unidos e/ou da exportação de poucos produtos primários.

Principais riscos

No primeiro grupo, destacam-se o México e as nações da América Central e Caribe. Um grande percentual de seu comércio exterior – em alguns casos, mais de 90% - se dá com os Estados Unidos. A relação foi aprofundada com a assinatura de acordos de livre comércio como o Nafta (em 1994) e o Cafta (2005), marcos da aposta em crescer pela vinculação à economia do vizinho do norte. Com a profunda crise pela qual passa esse país, a tendência é que diminua a demanda pelos produtos mexicanos e centro-americanos.

A dependência é reforçada pela imigração. Há cerca de 12 milhões de latino-americanos(as) vivendo nos Estados Unidos e a maioria é originária do México ou da América Central e Caribe, em especial El Salvador e República Dominicana. Essas pessoas enviam remessas de dinheiro para parentes e a quantia chega a dezenas de bilhões de dólares. Para muitas dessas nações, é uma fonte de recursos tão importante quanto as exportações. A crise nos Estados Unidos atingiu de maneira intensa os setores onde abunda a mão-de-obra latino-americana, como a construção civil, acarretando desemprego ou diminuição da renda, resultando em menor fluxo de remessas para suas famílias no exterior.

O segundo grupo de países vulneráveis depende da exportação de produtos primários, como petróleo, soja e cobre. Os preços dessas mercadorias havia se elevado muito nos últimos anos, mas começou a cair à medida que a crise se agravou. Os investimentos têm saído desse setor e ido para ouro e dólar. O barril petrolífero, por exemplo, atingiu o ápice de US$ 140 e depois teve seu valor reduzido para US$ 90. Isso prejudica os grandes exportadores do produto, como Venezuela, Colômbia e Equador. Problemas semelhantes afetam os países vinculados à soja (Brasil, Argentina, Paraguai) e ao cobre (Chile).

Além disso, a América Latina como um todo é afetada pelo pânico nos mercados financeiros globais, pois há reduções nos investimentos e no crédito que têm sido fatores importantes para o crescimento econômico da região. As conseqüências já foram sentidas nas quedas nas bolsas de valores e na desvalorização das moedas locais frente ao dólar.

Recursos para enfrentar a crise

Apesar dos riscos, há consenso que o impacto da crise na região será menor do que em turbulências anteriores, como as moratórias das dívidas externas (1982) ou a instabilidade financeira dos mercados emergentes (1997-2001). Nessas ocasiões, a América Latina estava no centro do problema e sofreu anos de recessão e de agravamento dos problemas sociais. Atualmente, o quadro é diferente: a crise não se originou aqui e os anos de bonança da última década deram aos governos recursos para lidar com os problemas. As autoridades dispõem de boas reservas cambiais e dinheiro em caixa para tocar ações de emergência.

Os bancos latino-americanos não investiram maciçamente nos títulos derivados do mercado imobiliário dos Estados Unidos e, portanto, não sofreram os efeitos do colapso. Simultaneamente, as empresas da região não contraíram muitos empréstimos no exterior, sendo relativamente pouco atingidas pela diminuição dessa fonte de capital.

No caso brasileiro, somente 10% do crédito das empresas nacionais vem de fora do país, e o governo reagiu diminuindo a taxa dos depósitos compulsórios ao Banco Central, o que liberou cerca de R$ 100 bilhões para as instituições financeiras disponibilizarem no mercado nacional. Além disso, setores-chave da economia foram beneficiados com pacotes de ajuda, como a indústria naval.

Outro bom exemplo de gestão é o Chile, que há anos mantém um fundo para armazenar os recursos oriundos da exportação do cobre. O dinheiro é guardado durante os bons anos e é utilizado pelo governo apenas em situações difíceis, para estimular a economia. De modo que as autoridades chilenas podem compensar a queda no preço do cobre.

Além disso, é preciso destacar o acerto da estratégia diplomática seguida pelos países do Mercosul e pelo Chile. Ao invés de apostar todas as fichas no mercado dos Estados Unidos, essas nações optaram por negociações comerciais para ampliar suas exportações a outros pólos dinâmicos da economia internacional. Principalmente China, mas também Índia, África e os intercâmbios dentro da própria América Latina. O resultado: maiores possibilidades de manobrar no cenário instável que se anuncia para o mundo.

8 comentários:

Marcelo Luiz disse...

Prezado Mauricio, muito bom artigo, mas acredito que quem se saiu melhor com a crise vai ser a Bolívia, por um motivo simples, é um país que vende energia para Brasil e Argentina, além do Chile também querer, e agora não existiram muitos investimentos deles para diminuir essa dependência, principalmente no caso brasileiro o pré-sal deve dar uma diminuída no ritmo de implementação.

Mauricio Santoro disse...

Caro Marcelo,

Obrigado. De fato, a economia boliviana não enfrenta grandes ameaças. A demanda de gás por parte da Argentina e do Brasil já era superior ao que os bolivianos eram capazes de fornecer, portanto mesmo que haja redução da procura, isso não deve afetá-los profundamente. Ainda que a baixa do preço do petróleo possa afetar negativamente o valor do gás.

Contudo, para lembrar o post sobre "Pensar a América do Sul", o problema boliviano é político, e não econômico. A questão é a nova Constituição e os enfrentamentos entre La Paz e a Meia Lua. Economicamente o país vai bem, inclusive o governo Evo conseguiu um ótimo resultado fiscal, com superávit, revertendo a tendência histórica de déficits.

Abraços

Hugo Albuquerque disse...

Maurício,

Bela análise, concordo plenamente. De fato o México será, dentre as grandes economias da região, a mais afetada por essa crise; depois do NAFTA qualquer gripe na economia americana vira pneumonia lá dentro, nessa atual situação é de dar medo o que pode acontecer. A Venezuela também não ficará muito atrás.

Por outro lado, em que grau você acha que essa crise pode estimular um maior desenvolvimento do mercado interno dos países da região para compensar a queda eventuais quedas nos preços das exportações?

Mauricio Santoro disse...

Salve, Hugo.

Me parece que algo assim pode ocorrer na Argentina, que anunciou algumas medidas para proteção do mercado interno, que foram recebidas com reserva pelo Brasil.

No entanto, hoje em dia há uma série de limitações a tais iniciativas, inclusive pelas normativas internacionais, do Mercosul, OMC, Nafta, Cafta etc. De modo que o recurso ao protecionismo comercial é bem mais restrito do que, digamos, na Grande Depressão da década de 1930.

Abraços

cintia disse...

Maurício,
Sou uma curiosa a respeito de política internacional e achei esse artigo excelente, esclarecedor e, o melhor e mais raro, compreensível. Obrigada.
Cintia

Mauricio Santoro disse...

Obrigado, Cíntia.
Ele foi escrito exatamente com essa intenção.

Abraços

SAM disse...

Interessante como o Chile é sempre listado como dos poucos que se conseguem salvar, devido a essa estabilidade interna.

Por isso, fiquei pensando nalgo que uns amigos que viveram no Chile por vezes dizem: que a economia chilena e a estabilidade é devida a Pinochet.

O regime instaurado por ele, de facto, não era um de crime contra a humanidade, mas de vergonha da humanidade. Contudo, não será verdade que foi ele que permitiu essa atual estabilidade nacional?
Refletirei sobre o tema (apesar do incomodo que sinto por essa possibilidade) e gostaria de saber a sua opinião, Maurício.

Abraço

Mauricio Santoro disse...

Olá, Sam.

Creio que é um mito. A economia chilena sob Pinochet cresceu em média apenas 3% ao ano, devido à grande volatilidade: por exemplo, houve uma recessão séria em 1982. Em todo caso, foi abaixo da média regional sul-americana.

As grandes taxas de crescimento, acompanhadas da redução da pobreza, vieram com os governos democráticos da Concertación.

Penso que as contribuições de Pinochet vieram de consolidar na elite política chilena os valores da estabilidade e da democracia. O medo do retorno da ditadura foi poderoso incentivo para que socialistas e democratas-cristãos superassem divergências e negociacem ocordos, o que nem sempre ocorrera no passado - basta pensar no governo Allende.

Além disso, há uma forte tradição chilena de planejamento e Estado eficiente, que vem pelo menos desde a década de 1930.

Abraços